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Quarenta por cento da população mundial — aproximadamente 3,2 bilhões de pessoas — vive a menos de 100 quilômetros da costa. E não é coincidência: essas mesmas áreas concentram 60% de toda a riqueza produzida globalmente. O Brasil, com sua dimensão continental e 7.491 quilômetros de litoral, está no epicentro dessa contradição: desenvolvimento acelerado onde o risco climático é máximo.
O Ministério das Cidades reconhece essa realidade com urgência que não é retórica. Cidades mais seguras e resilientes não são luxo de planejamento — são questão de sobrevivência econômica e justiça social. Quem ganha com essa transformação? Populações vulneráveis que hoje enfrentam enchentes, deslizamentos e falta de infraestrutura. Quem perde se não agirmos? Todos nós, em forma de economia quebrada, desemprego e êxodo forçado.
O rosto invisível da urgência
Maria dos Santos, 47 anos, acordou na manhã do último temporal em São Vicente (SP) com água na cintura. Sua casa, construída em encosta, fica a 800 metros do mar — dentro daquele perímetro de risco onde vivem bilhões. Ela não escolheu ali para estar vulnerável: escolheu porque era o único lugar que sua renda permitia. Milhões de brasileiros vivem essa realidade em favelas, periferias e áreas de risco nas cidades litorâneas.
Quando chove forte, não é só a água que desce a encosta. Desce também esperança, renda, vidas. A história de Maria não é exceção — é padrão em um país onde 88% da população vive em cidades, muitas delas no litoral ou em zonas de vulnerabilidade climática.
Por que as cidades costeiras viraram armadilhas
Há séculos, cidades crescem onde o comércio prospera: portos, acesso ao mar, logística. Mas ninguém previu — ou ignorou — que o mesmo mar que enriquece pode destruir. O resultado: concentração de renda e risco no mesmo lugar. Cidades costeiras brasileiras cresceram sem planejamento climático, sem drenagem adequada, sem espaços verdes que absorvam água.
A indústria imobiliária ganhou bilhões ocupando áreas de mangue, estuários e encostas. Os governos municipais arrecadaram impostos sobre essa expansão desordenada. Mas quem paga o preço real? Trabalhadores pobres que moram onde ninguém mais quer construir. Quem planeja as saídas? Essa pergunta ainda não tem resposta clara em grande parte das prefeituras brasileiras.
O que os números revelam sobre negligência
Sessenta por cento do PIB global vem de 2% do território terrestre — as faixas costeiras. No Brasil, esse percentual é ainda maior. São Paulo, Rio de Janeiro, Santa Catarina: economias inteiras dependem de zonas de risco climático. O Ministério das Cidades já sabe disso. A pergunta agora é: qual município está realmente implementando planos de resiliência urbana? Qual governo está relocando pessoas de áreas de risco? Qual cidade brasileira tem plano de drenagem que funcione?
Poucas. Muito poucas. O déficit de planejamento é estrutural.
O que já funciona em cidades que apostaram na resiliência
Não é tudo fracasso. Cidades holandesas como Roterdã reinventaram-se após enchentes devastadoras. Criaram parques que absorvem água, edifícios flutuantes, infraestrutura verde integrada. Não é utopia — é engenharia. E é reproduzível. Somos capazes de fazer o mesmo em Rio de Janeiro, em Recife, em Salvador.
Nós precisamos de cidades que pensem como rios, não contra eles. Que absorvam água como floresta absorve chuva. Que protejam quem é mais frágil, não apenas quem tem renda. Esse modelo existe. O que falta é vontade política e investimento coordenado — e ambos dependem de nós, eleitorado, cobrando cada prefeito, cada governador.
O momento é agora, não depois
Enquanto se debate, famílias são desabrigadas. Enquanto se planeja, pessoas morrem. O Ministério das Cidades está certo em soar o alarme: é hora de agir em segurança climática urbana com a mesma intensidade que se investe em rodovias ou estádios. Acesse o portal do ministério, conheça o diagnóstico completo da situação das cidades brasileiras, e compartilhe com sua prefeitura: é possível construir diferente. É possível preparar nossas cidades para o clima que vem — e para o que virá depois. A diferença entre sobreviver e prosperar está no planejamento que fazemos hoje.
A escolha é nossa. Mas o tempo, não.
Fonte: @mdascidades no X (Twitter)