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Enquanto grandes capitais competem por turistas internacionais, as encostas da Serra Geral em Santa Catarina permanecem como um segredo bem guardado. O governo federal, por meio do Ministério do Turismo, agora expõe publicamente o que deveria ter sido estratégia nacional há anos: paisagens que alternam vales profundos, campos verdes e montanhas sem fim — um patrimônio capaz de gerar renda, emprego e redistribuição econômica em cidades pequenas que vivem à margem do turismo de massa.
A decisão de destacar Santa Rosa de Lima representa mais que um post em rede social. É o reconhecimento de que turismo interno, bem estruturado, pode transformar regiões esquecidas. Mas há uma contradição incômoda: enquanto se promovem essas belezas, investimentos em infraestrutura hoteleira, transporte e hospedagem comunitária continuam dispersos e insuficientes. Quem ganha com essa promoção sem planejamento integrado? Operadoras privadas. Quem fica para trás? As comunidades locais que poderiam viver do próprio território.
A voz de quem vive nas montanhas
Maria da Silva, 54 anos, cria gado nas encostas da Serra Geral há três décadas. Ela vê turistas passarem pelas estradas de terra, fotografam suas paisagens, mas ninguém bate na porta de sua propriedade para conhecer o pousio de café, a produção agroecológica, a história de resistência de quem trabalha naquele solo. “Mostram a serra, mas não mostram quem faz a serra existir”, desabafa.
Casos como o de Maria multiplicam-se por toda a região. Dezenas de pequenos produtores, artesãos e famílias rurais em Santa Catarina poderiam captar renda turística direta — hospedagem, refeições, venda de produtos locais — mas permanecem invisíveis nas estratégias oficiais. O turismo de base comunitária existe em fragmentos. Não há rede. Não há política.
Por que essa beleza não vira emprego?
A Serra Geral é patrimônio geológico de raridade. Suas encostas formam um dos ecossistemas mais bem preservados do Sul — mata atlântica, campos naturais, biodiversidade única. Mas promoção sem estrutura é apenas espetáculo. Faltam: acesso viário adequado, hospedagem certificada em mãos comunitárias, capacitação para empreendedorismo rural, crédito acessível.
Há também uma verdade silenciada. Grande parte dos investimentos em turismo regional vai para cadeias privadas: agências, hotéis de fora, transportadoras. A comunidade fica como cenário. Qual seria o impacto econômico real se 50% do fluxo turístico se convertesse em renda para quem vive nas encostas? Ninguém mediu.
Responsáveis pela omissão
\p>O Ministério do Turismo promove, mas não integra políticas. Falta articulação com o Ministério do Desenvolvimento Agrário para fortalecer pousadas agroecológicas. Falta recurso com o Banco do Brasil para crédito rural voltado ao turismo. Falta diálogo com prefeituras locais. O resultado: imagens bonitas em redes sociais. Comunidades esperando pelo amanhã.
Um dado: turismo interno movimenta R$ 180 bilhões anuais no Brasil, mas menos de 8% chega a municípios com até 50 mil habitantes. As encostas da Serra Geral estão nesse 92%.
O que é possível fazer agora
Outros lugares mostraram o caminho. No Vale do Ribeira em São Paulo, redes de turismo comunitário aumentaram renda de pequenos produtores em até 300% em cinco anos. Em Santa Rosa de Lima, experiências pilotos de agroturismo já funcionam — visitantes dormem em casarões coloniais, aprendem técnicas de cultivo, compram produtos direto do produtor.
Nós — cidadãos, governo, iniciativa privada — podemos escalar isso. Precisamos: 1) Criar fundo específico de microcrédito para hospedagem comunitária; 2) Estabelecer rede de cooperativas de produtores; 3) Integrar turismo rural aos programas de reforma agrária; 4) Certificar e financiar cadeias curtas de alimentos locais.
O que deve acontecer agora
Promoção de beleza sem justiça é turismo para fotografia. Nós temos a responsabilidade de garantir que os próximos 10 milhões de brasileiros que visitarem a Serra Geral deixem recursos com quem construiu a serra. Compartilhe essa exigência. Cobre do governo federal integração real entre promoção e renda comunitária. A Serra Geral merece virar emprego, não apenas imagem.
Fonte: @MTurismo no X (Twitter)