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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva publicou nesta terça-feira uma mensagem de solidariedade ao jornalista Juca Kfouri pela morte de sua filha Camila. O gesto, embora pessoal, revela uma escolha estratégica raramente vista em comunicações presidenciais: reconhecer que o chefe de Estado também é um ser humano capaz de compaixão.
Enquanto a máquina governamental segue seu ritmo de decretos e coletivas de imprensa, o presidente interrompe a agenda para nomear o sofrimento de um amigo. Essa ruptura — tão simples quanto profunda — reposiciona a narrativa sobre o que se espera de quem governa: não a frieza do protocolo, mas a presença.
Quando a solidariedade vira política
Juca Kfouri é uma voz histórica da crítica social no Brasil. Seus textos sobre futebol, política e cultura tocam milhões de brasileiros que veem nele um intelectual sem concessões. Perder uma filha é uma tragédia que transcende círculos políticos. Atinge o humano.
Mas há algo mais aqui. Milhões de brasileiros enfrentam lutos semelhantes — perdem filhos, filhas, netos — frequentemente invisibilizados pela indiferença estatal. A mensagem de Lula a Kfouri não apaga essa realidade estrutural. Ao contrário, expõe a distância entre o luto de quem tem visibilidade e o luto silencioso das ruas. E nos faz perguntar: por que nem todo brasileiro em sofrimento recebe esse reconhecimento?
Porque aqui está o nó. A solidariedade presidencial é seletiva — chegou a Kfouri porque ele tem voz pública. Mas e os outros?
A ausência invisível do Estado
No Brasil, 61 mil pessoas morrem por homicídio anualmente. Mães e pais que perdem filhos todos os dias. Famílias inteiras que desaparecem nas comunidades periféricas sem um comunicado presidencial, sem reconhecimento oficial, sem a presença que Lula ofereceu a seu amigo.
O Estado brasileiro historicamente relegou esses lutos ao esquecimento — como se a morte de alguns merecesse consolo e a morte de outros, invisibilidade. Políticas públicas de proteção à vida permanecem subfinanciadas. Programas de saúde mental comunitária funcionam com recursos insuficientes. Nenhum decreto presidencial ressoa sobre a dor coletiva que atravessa periferias.
Qual é a diferença real entre o luto de Juca Kfouri e o luto de uma mãe na favela? Um recebe a solidariedade do poder; o outro recebe silêncio.
A política que reconhece a humanidade
Ainda assim, o gesto de Lula aponta para uma possibilidade. Se a compaixão é real no discurso presidencial, por que não transformá-la em estrutura?
Nós — sociedade, governo, mídia — podemos reconhecer que solidariedade genuína exige mais do que tweets. Exige recursos destinados a políticas de prevenção de homicídios. Exige investimento em saúde mental nas comunidades. Exige que cada luto importado seja tão visibilizado quanto o de um jornalista de prestígio.
Alguns governos já demonstraram que é possível. Políticas de redução de homicídios em cidades como Diadema, nos anos 2000, provaram que presença estatal deliberada salva vidas. Programas de acompanhamento psicológico para vítimas de violência existem em outras democracias. A solidariedade pode ser política pública.
O chamado urgente
Lula ofereceu carinho e solidariedade a Juca Kfouri. Agora, o próximo passo exige coragem política diferente. Transformar essa compaixão declarada em compromisso orçamentário. Financiar políticas que evitem que mais famílias vivam o que Kfouri vive. Garantir que todo brasileiro em luto — rico ou pobre, famoso ou anônimo — receba reconhecimento estatal.
A solidariedade sem estrutura é retórica. A retórica sem estrutura perpetua a desigualdade. O Brasil não precisa de mais mensagens de pesar. Precisa de políticas que evitem o pesar. Essa é a verdadeira humanidade na política.
Fonte: @LulaOficial no X (Twitter)
Foto: Lula Oficial/Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0 · tratamento: Agenda Positiva · original · licença