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Programa inédito tenta frear extinção de idiomas ancestrais
Enquanto você lê esta frase, uma língua indígena desaparece no Brasil. Não metaforicamente. Literalmente. O Programa Língua Indígena Viva no Direito (LIVD), lançado pelos movimentos indígenas, representa a primeira iniciativa estruturada para barrar essa hemorragia cultural que o Estado ignorou por séculos.
Essa não é apenas uma questão antropológica. É uma disputa de poder sobre quem define a história, a identidade e o futuro dos povos originários brasileiros. Enquanto as línguas desaparecem, desaparecem também os saberes sobre medicina, biodiversidade e formas de organização social que o próprio agronegócio precisaria aprender para não destruir o que resta.
Quando a língua morre, morre também a memória
Maria Kopenawa, mulher yanomami de 64 anos, é uma das últimas falantes fluentes de sua língua em sua comunidade. Seus netos entendem fragmentos. Seus bisnetos, quase nada. “Minha avó contava histórias que explicavam por que a floresta é viva, por que não se mata sem necessidade”, conta ela em português, a língua que roubou lugar na infância dela. Hoje, 274 línguas indígenas existem no Brasil. Em trinta anos, pelo menos um terço pode desaparecer.
Isso não é apenas a perda de um povo. São 70 milhões de brasileiros que vivem em regiões onde a biodiversidade depende do conhecimento indígena — conhecimento que só existe quando a língua permanece viva nas comunidades.
Como você transmite a sabedoria de uma floresta inteira em palavras que não foram criadas para descrevê-la?
Décadas de abandono institucional
O Brasil ratificou em 1989 a Convenção 169 da OIT, comprometendo-se a proteger os direitos linguísticos dos povos indígenas. Três décadas depois, o investimento federal em educação bilíngue permanece irrisório — menos de 2% do orçamento de educação indígena. Enquanto isso, políticas de integração forçada continuam operando na prática: escolas indígenas funcionam em português, currículos ignoram a história oral, professores indígenas recebem metade do salário de colegas não indígenas.
Quem ganha com essa morte lenta? Os que controlam terra. Os que precisam silenciar vozes que denunciam destruição ambiental. Os que vendem a ideia de que progresso significa desaparecer.
Mas há uma questão que ninguém quer responder: o que fazemos quando acordarmos e descobrirmos que perdemos não apenas uma língua, mas as soluções que ela carregava?
O caminho já existe
O LIVD propõe algo radical: reconhecer as línguas indígenas como patrimônio jurídico vivo, não como relíquia do museu. Nós — sociedade brasileira — temos exemplos que funcionam. Na Bolívia, programas de co-oficialidade de idiomas indígenas aumentaram em 40% a transmissão intergeracional da língua. Na Nova Zelândia, a revitalização do maori criou uma geração de falantes que não existiria sem políticas públicas estruturadas.
Aqui, organizações indígenas já conduzem oficinas, criam materiais didáticos, formam professores. O que falta é financiamento real e vontade política de reconhecer: essa não é caridade. É reparação.
Sua próxima ação
O programa está aberto. Você pode acessar o site oficial — o link está na bio de @mpovosindigenas — e conhecer como sua região pode se envolver. Mas mais importante: pergunte ao seu governo municipal e estadual por que não financia educação bilíngue. Por que as escolas indígenas recebem menos. Por que o Brasil escolheu esquecer essa dívida.
Línguas indígenas não precisam de pena. Precisam de poder.