Investimento em audiovisual marca novo capítulo da política cultural brasileira
O governo federal anuncia expansão significativa no setor audiovisual nacional. A medida chega em momento crítico para produtoras, cineastas e profissionais que viram seus recursos encolherem nos anos anteriores. Milhões de brasileiros dependem dessa cadeia produtiva — desde técnicos de som até roteiristas que enfrentam desemprego estrutural há quase uma década.
A aposta estratégica marca posicionamento claro: enquanto países vizinhos consolidam suas indústrias criativas como motor econômico, o Brasil investe em narrativa própria. Quem ganha? Produtoras independentes, profissionais audiovisuais e comunidades que terão mais conteúdo refletindo suas realidades. Quem perde? Aqueles que apostavam no vazio institucional como vantagem competitiva.
Histórias que precisavam ser contadas
Carolina trabalha há 15 anos como assistente de direção em São Paulo. Passou por períodos em que recebia por projeto, sem garantia de próximo trabalho. Sua situação não é isolada: aproximadamente 180 mil profissionais da cadeia audiovisual brasileira enfrentam precariedade estrutural. São roteiristas, diretores de fotografia, figurinistas, editores — criadores cuja renda depende de políticas que historicamente negligenciaram a indústria criativa como ferramenta de desenvolvimento.
Quando políticas de financiamento desaparecem, desaparecem também as histórias. As narrativas que explicam quem somos.
Por que chegamos aqui?
O setor audiovisual brasileiro construiu-se historicamente em ciclos de boom e abandono. Nos anos 1990 e 2000, a Lei Rouanet e fundos setoriais criaram ecossistema produtivo robusto. Entre 2016 e 2022, esses mecanismos foram esvaziados propositalmente. Resultado concreto: produção de longas-metragens brasileiros caiu 63% nesse período. Estúdios fecharam. Profissionais migraram para mercados latino-americanos.
Mas por que abandonar intencionalmente uma indústria que gera empregos e receita? Porque audiovisual é poder narrativo. É quem conta as histórias que circulam. Investir em indústria criativa é investir em soberania cultural.
Responsabilidades que precisam ser nomeadas
Entre 2019 e 2022, orçamento para audiovisual federal recuou 87% em termos reais. Não foi acaso. Governo anterior cortou deliberadamente mecanismos de financiamento, alegando enxugar gastos públicos — enquanto subsidiava outros setores sem justificativa técnica. O efeito foi brutal e mensurável: a indústria encolheu.
Negligência orçamentária. Isso destrói ecossistema.
O que é possível fazer
Países como México e Argentina demonstram modelo funcional: financiamento público combinado com incentivos fiscais privados. Chile e Uruguai avançam com fundos de desenvolvimento audiovisual. Nós temos precedente: nos anos 2000, criamos indústria significativa com instrumentos semelhantes. Dados mostram que cada real investido em audiovisual gera retorno de 2,8 reais em economia criativa.
Não estamos inventando nada. Estamos retomando o que funciona. E ampliando.
Para onde vamos
Ampliar audiovisual é ampliar oportunidade. Para Carolina, para milhares de profissionais que construíram carreira em precariedade. Para comunidades cujas histórias ainda não foram contadas — indígenas, quilombolas, periféricas. Para mercado que exporta produtos que o mundo paga para assistir.
A questão agora é simples: reconhecemos que cultura é economia? Que narrativa é infraestrutura? Se sim, nós — como sociedade — precisamos garantir que essa política tenha recursos duráveis, blindagem orçamentária contra cortes futuros, e participação real de produtores independentes.
Audiovisual forte é Brasil que fala por si mesmo.
Fonte: @LulaOficial no X (Twitter)
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