No próximo dia 23, a Embrapa realiza a abertura da Feira Brasil na Mesa com um painel estratégico: a Subsecretaria de Mulheres Rurais do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar apresentará políticas concretas para a autonomia econômica de mulheres que vivem no campo. Não é apenas um evento. É o reconhecimento público de quem trabalha invisível.
Enquanto isso, 6 milhões de mulheres rurais no Brasil ainda enfrentam barreiras estruturais para acessar crédito, mercados e tecnologia agrícola. O governo federal coloca essa discussão na pauta de forma direta. Mas será que as políticas anunciadas alcançarão quem mais precisa?
Quem colhe, mas não possui a terra
Maria cultiva feijão e milho em meia hectare no sertão mineiro. Seus filhos estudam na cidade. Seu marido migra para São Paulo metade do ano. Ela permanece. Entrega sua produção para atravessadores, recebe a metade do preço de mercado e não consegue financiamento para mecanizar a pequena lavoura porque seu nome não está na documentação das terras. Milhões de mulheres vivem essa realidade exata. Quando falam sobre autonomia econômica de mulheres rurais, falam sobre vidas como a de Maria — e quantas mais esperam pela oportunidade que ainda não chegou?
Por que isso permaneceu invisível por tanto tempo
Durante décadas, as políticas de desenvolvimento rural brasileiro ignoraram deliberadamente as mulheres agricultoras. O crédito rural subsidiado destinava-se ao “chefe de família” — leia-se homem. Os programas de cooperativismo replicavam estruturas patriarcais. Tecnologia agrícola era pensada para propriedades grandes, não para a agricultura familiar predominantemente feminina. O Ministério da Agricultura anterior tratava mulheres rurais como beneficiárias de programas assistencialistas, não como produtoras estratégicas.
Os números revelam: mulheres representam 27% dos agricultores familiares, mas recebem apenas 3% do crédito rural. Nós criamos essa desigualdade. Nós permitimos que persistisse. Mas será que esse painel na Feira Brasil na Mesa conseguirá realmente mudar os critérios de acesso ao crédito agrícola?
O que o governo federal está fazendo de concreto
A Subsecretaria de Mulheres Rurais não é apenas um departamento. É uma estrutura dedicada a transformar. A apresentação de políticas para promoção de autonomia econômica significa linhas de crédito específicas, assistência técnica direcionada, acesso a mercados institucionais, documentação de terra facilitada. Não é discurso vazio. São mecanismos.
O governo reconhece o que o mercado privado sempre soube: mulheres rurais com autonomia econômica geram multiplicadores. Educam filhos, investem na comunidade, preservam a agricultura familiar. Mas ainda há lacuna. Falta implementação rápida nas bases.
O que já funciona — e pode se expandir
Em estados como Bahia e Ceará, experiências piloto de crédito para mulheres agricultoras apresentam taxa de retorno de 96%. Cooperativas lideradas por mulheres no Mato Grosso do Sul aumentaram renda média em 45% em dois anos. Nós sabemos que funciona. Sabemos que retorna. O desafio agora é escalar essas soluções para os 27% de agricultoras familiares que ainda estão fora do sistema.
É possível. Depende de vontade política sustentada.
Por que participar da conversa importa
A Feira Brasil na Mesa no dia 23 não é um evento isolado — é um ponto de encontro entre decisores, produtoras e instituições que podem gerar pressão por políticas de verdade. Cada mulher que participa, cada cooperativa que se faz presente, cada histórico de sucesso compartilhado reforça a demanda. Nós construímos legitimidade juntas.
Acesso a esse tipo de espaço, antes bloqueado, agora é aberto. Use.
A autonomia econômica de mulheres rurais não é favor. É justiça. É investimento. É produtividade. No dia 23, na Embrapa, essa conversa sai do papel e ganha rosto, voz, número. O próximo passo é transformar apresentação em implementação.
Fonte: @mdagovbr no X (Twitter)
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