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Ministro negocia turismo de massa com Pequim em Xangai
O ministro Gustavo Feliciano está em Xangai fechando negociações de voos diretos com a China Eastern e lançando guia de investimentos em mandarim. A aposta é clara: transformar chineses em turistas brasileiros enquanto o fim do visto bilateral abre as comportas. Tudo acontece agora, quando a demanda reprimida pode gerar fluxo histórico.
A estratégia revela um cálculo político sofisticado. Não se trata apenas de turismo cultural: é sobre receita cambial, empregos em cadeias hoteleiras e infraestrutura, e reposicionamento do Brasil como destino de classe alta asiática. Quem ganha na ponta: operadores turísticos, agências, setor hoteleiro em regiões já saturadas. Quem fica de fora: pequenas cidades sem infraestrutura para absorver fluxo massivo.
O turista que sai da teoria e entra na realidade
Imagine um empresário de Xangai: passaporte aberto, direto para Galeão, Rio em 12 horas. Ele representa um mercado de 1,4 bilhão de pessoas onde viajar para o exterior é símbolo de status. Não é um turista ocasional — é um cliente que gasta médio três vezes mais que europeu. Multiplicamos: se 10% dessa classe de alta renda aumentar viagens ao Brasil, falamos de centenas de milhões em receita anual.
Mas quem trabalha na ponta? Recepcionista de hotel, motorista de Uber, garçom, limpeza, guia turístico. Esses profissionais vivem na corda bamba de sazonalidade e informalidade. Mais fluxo pode significar mais trabalho. Pode também significar gentrificação de bairros históricos e preços inacessíveis para moradores locais.
Por que agora, por que com a China
O Brasil nunca foi prioridade turística para asiáticos — a concorrência é feroz (Tailândia, Vietnã, Indonésia). O visto obrigatório era barreira de atrito brutal: consulados lentos, burocracia chinesa, custo adicional. Remover essa barreira é reconhecer uma verdade: mercados não crescem com obstáculos.
A China já é nosso maior parceiro comercial em manufatura e commodities. Agora vira fonte de turismo de alto valor. Quem tem interesse nessa porta se abrir? Ministério do Turismo (números crescentes), setor hoteleiro (ocupação de leitos), operadores aéreos (China Eastern + companhias nacionais), agências receptivas. Qual é a pergunta que ninguém está fazendo em voz alta? Como cidades como Rio e São Paulo absorvem pressão adicional de visitação sem colapsar sua própria infraestrutura?
Onde isso já funcionou — e o que aprendemos
Portugal abriu para turismo chinês massivo nos últimos dez anos. Resultado: Lisboa e Porto explodiram em visitação, sim. Mas ruas históricas viraram lojas de souvenirs, preços de aluguel triplicaram, moradores antigos saíram. Tailândia fez aposta parecida com sucesso relativo — mas tem escala geográfica e operadores experientes que o Brasil ainda não possui.
Nós podemos fazer diferente. Distribuir esse fluxo: investir em rotas alternativas (Manaus, Jericoacoara, Ouro Preto), criar clusters de turismo de nicho (ecoturismo, gastronomia, inovação), preparar cidades médias antes que o fluxo chegue. Isso custa, mas custa menos do que reparar infraestrutura colapsada depois.
A responsabilidade está nomeada
Gustavo Feliciano negocia voos. Bom. Mas quem planeja absorção de infraestrutura? Quem treina profissionais de hospitality em mandarim ou com sensibilidade cultural? Quem investe em sinalização turística, capacidade de hospitais, policiamento? Os dados falam: Brasil recebeu 6,6 milhões de turistas estrangeiros em 2022. Se China contribuir com 5% disso em três anos, são 330 mil novos turistas anuais em cidades que já estão no limite.
Abertura de mercado sem planejamento é aposta, não estratégia.
O que fazer agora
Nós temos uma chance rara: negociar com olhos abertos. Aceitar voos diretos, sim. Mas simultaneamente: exigir investimento em infraestrutura urbana, criar programa de capacitação profissional em cidades receptoras, articular planos de distribuição geográfica com governos estaduais, estabelecer metas de turismo responsável. Não é rejeitar a China Eastern. É garantir que brasileiros ganhem de verdade com essa porta que se abre.
Feliciano voltará com números otimistas. A pergunta que fica é: quando os primeiros voos pousarem, o Brasil terá preparado o chão para receber?
Fonte: @MTurismo no X (Twitter)