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Euclides Fagundes Filho, o Bagre Fagundes, morreu neste domingo em Porto Alegre levando consigo sete décadas de gaita, poesia e resistência cultural. Não se trata apenas de um músico gaúcho a menos. Trata-se da morte de um guardião — aquele que mantinha viva, dentro do próprio peito, a memória sonora de um povo inteiro.
O presidente Lula reconheceu o que poucos sistemas de poder reconhecem: que a cultura não é luxo, é sobrevivência. Que um homem com uma gaita nas mãos pode fazer o que nenhuma política pública isolada consegue — manter milhões de pessoas conectadas à sua própria história. Bagre não apenas tocava. Bagre transmitia.
O som que não pode morrer
Imagine crescer ouvindo uma música que ninguém mais toca nas rádios. Imagine ser jovem em Porto Alegre e descobrir, através de Bagre, que seus avós não eram apenas trabalhadores rurais — eram criadores de uma tradição que atravessou gerações. Isso é o que ele fez. Milhões de gaúchos aprenderam quem eram através da música que Bagre levou a grandes públicos.
Mas há algo que permanece sem resposta: quem ocupará esse vácuo agora? Quantos Bagres precisamos perder para entender que a preservação cultural exige investimento estruturado, não apenas admiração tardia?
O que o Brasil perde quando silencia seu próprio patrimônio
Bagre Fagundes não era um fenômeno isolado. Ele era resultado de uma tradição que, durante décadas, foi considerada menor — música de gaúcho pobre, poesia de interior, arte sem rentabilidade imediata. Enquanto isso, investíamos em tudo menos em quem guardava nossas raízes.
A gaita de Bagre foi seu ato político permanente. Cada nota era um protesto contra o apagamento.
O Brasil que ignora seus próprios artistas tradicionais é o mesmo que estranha quando a juventude não sabe de onde vem. É o mesmo que se pergunta por que as identidades regionais enfraqueceram. A resposta está nas mãos que não tocam mais — porque ninguém as apoiou quando ainda estava na hora.
Nós sabemos como mudar isso
Não é mistério. Países que mantêm viva sua tradição investem em mestres como Bagre enquanto ainda respiram. Criam espaços de transmissão, bolsas para aprendizados, circuitos de apresentação que garantem sustento e dignidade.
Nós temos a capacidade de fazer isso. Temos os recursos. O que nos falta é a decisão coletiva de que preservar cultura é investir em futuro.
A morte de Bagre não precisa ser apenas um luto. Pode ser um chamado.
O que fazemos agora
Reconhecer Bagre é reconhecer que todo território do Brasil carrega mestres como ele — esperando. Aguardando. A música tradicional gaúcha não desaparece porque Bagre morreu. Desaparece se deixarmos que a próxima geração de guardiões morra pobre e desconhecida.
Nós podemos mudar isso hoje. Exija de seu governo políticas reais de preservação cultural. Exija bolsas para mestres tradicionais. Exija circuitos de apresentação que garantam sustento. Exija que a próxima Bagre não precise morrer para ser lembrada.
Que os Pampas não fiquem mudos.
Fonte: @LulaOficial no X (Twitter)