Milton Santos ensinava o Brasil a partir de suas periferias

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Milton Santos completaria hoje 100 anos de nascimento. O intelectual baiano que revolucionou o pensamento geográfico brasileiro deixou uma obra que continua urgente: a compreensão de como as desigualdades da globalização reconfiguram nossas cidades e excluem milhões de pessoas das margens.

Quando falamos de periferia, não falamos de um problema isolado. Falamos de 52 milhões de brasileiros que vivem em aglomerados subnormais, conforme o último censo do IBGE. São pessoas cujas vidas foram esquecidas pelos planejadores urbanos do século passado — exatamente o que Santos denunciava com precisão cirúrgica.

O geógrafo que viu o invisível

Imagine uma mulher que acorda às 5 da manhã em uma favela do Rio de Janeiro para pegar três ônibus rumo ao trabalho em Copacabana. Ela gasta três horas por dia em deslocamento. Três horas. Milton Santos compreendeu que essa não era incompetência individual, mas resultado de decisões políticas que criaram cidades para poucos e excluíram muitos. Milhões de brasileiros vivem essa realidade diariamente — e poucos conseguem nomear a injustiça que experimentam.

A periferia não é um problema. A periferia é um laboratório de resistência, um espaço onde a criatividade humana resiste à lógica do lucro. Santos sabia disso.

Por que esquecemos de Milton quando mais precisamos dele

Durante décadas, a geografia brasileira foi ensinada como se as cidades crescessem por acaso — como se favelas, cortiços e periferias fossem inevitáveis acidentes históricos. Não eram. Eram, e continuam sendo, consequência de escolhas deliberadas: quem tem acesso à terra, quem recebe investimento em infraestrutura, quem é considerado cidadão de primeira classe.

Quando o Brasil abraçou políticas neoliberais dos anos 1990 em diante, relegou ao esquecimento exatamente o pensador que melhor explicava suas contradições. A globalização que Santos alertava — que concentra riqueza e espalha pobreza — se aprofundou enquanto suas ideias dormiam nas estantes das universidades.

Mas há uma pergunta que não quer calar: o que poderíamos transformar se realmente ouvíssemos o que os intelectuais que vieram das periferias têm a nos dizer?

Reconstruindo cidades a partir de quem vive nelas

Nós já sabemos o que funciona. Quando investimos em transporte público de qualidade, reduzimos o tempo de deslocamento e aumentamos a produtividade. Quando investimos em habitação digna nas periferias, criamos estabilidade e esperança. Quando escutamos as comunidades no planejamento urbano, geramos soluções que duram.

A reconstrução do Brasil passa por isso: reconhecer que a inteligência não é privilégio das torres de vidro do centro, mas está viva nas ruas, nas assembleias de bairro, nas organizações comunitárias. Milton Santos já nos mostrava esse caminho.

A tarefa que nos resta

Celebrar Milton Santos no seu centenário não é um ato de nostalgia acadêmica. É um ato político. É dizer que o Brasil será verdadeiramente transformado quando colocar no centro das suas decisões aqueles que vivem nas periferias — aqueles que Milton nunca deixou de enxergar.

Leia Milton Santos. Compartilhe suas ideias. Nomeie a injustiça quando a vir. O Brasil precisa desse pensamento agora.

Fonte: @LulaOficial no X (Twitter)

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