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A contagem regressiva para o colapso
O Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA) acaba de soar o alarme: a modalidade de arrasto de praia já consumiu 80% da cota de captura de tainha para 2026. Quando essa proporção atingir 90%, a atividade será encerrada. A margem de segurança? Apenas 10 pontos percentuais. Para os pescadores artesanais e comunidades litorâneas que dependem dessa espécie, o relógio está acelerado.
O que parecia ser um recurso infinito revela-se finito. A tainha (Mugil liza), espécie fundamental para a alimentação e renda de milhares de famílias brasileiras, está sendo extraída em ritmo que a gestão pública mal consegue acompanhar. Enquanto isso, quem paga o preço não são as grandes operações — mas os pescadores que vivem dessa atividade há gerações.
O pescador na linha de frente
João, 58 anos, trabalha em uma comunidade pesqueira no litoral de Santa Catarina. Para ele e seus vizinhos, a tainha não é apenas um peixe. É o sustento de 4 milhões de brasileiros que dependem direta ou indiretamente da pesca artesanal. Quando a cota se esgota, as redes ficam vazias — e as contas do mês continuam chegando.
Multiplicam esse dilema por toda a costa atlântica. Do Espírito Santo ao Rio Grande do Sul, comunidades inteiras enfrentam a realidade de um recurso em acelerada depleção. E agora, com apenas 10% da cota restante, a atividade formal será suspensa antes mesmo que se conclua a temporada. Quem arcará com essa parada abrupta?
Por que chegamos aqui
A resposta não é simples, mas é reveladora. A modalidade de arrasto de praia — técnica industrial de captura em massa — foi autorizada e regulamentada sem que houvesse monitoramento adequado do impacto acumulativo. Durante anos, capturou-se como se os estoques fossem ilimitados. A falta de fiscalização rigorosa permitiu que cotas fossem ultrapassadas sistematicamente.
Há um conflito invisível aqui: enquanto a pesca industrial lucra com volumes massivos, os pescadores artesanais competem pela sobra. As grandes operações têm acesso a tecnologia de rastreamento e capacidade de armazenamento que pequenos pescadores nunca terão. Eles competem em condições radicalmente desiguais. Qual é o real impacto econômico dessa captura acelerada em comunidades que não têm plano B?
Responsabilidade nomeada
O Ministério da Pesca e Aquicultura, responsável por estabelecer as cotas, agora vê seu próprio sistema colapsar. Não há transparência sobre quem capturou quanto. Os dados desagregados por embarcação, por empresa, por região — informações essenciais para fiscalização — permanecem indisponíveis ao público. A administração decidiu esperar até 90% para agir. Pura gestão reativa.
Enquanto isso, nenhuma compensação foi anunciada para os pescadores que serão impedidos de trabalhar quando a atividade for suspensa.
O que é possível fazer agora
Outros países já demonstraram caminhos alternativos. A Islândia implementou sistema de quotas transferíveis que incentiva pesca sustentável. O Chile criou cooperativas de pequenos pescadores com acesso prioritário a frações de cota. Portugal estabeleceu períodos de defeso com auxílio direto aos trabalhadores afetados. Nós podemos aprender com essas experiências.
A prioridade imediata é clara: garantir renda às comunidades pesqueiras durante o período de encerramento. Depois, redesenhar o modelo de distribuição de cotas — priorizando pescadores artesanais e comunidades tradicionais. E, fundamentalmente, restaurar a transparência: todos os dados de captura precisam estar disponíveis ao público, em tempo real.
O minuto de verdade
Restam apenas 10% da cota. O anúncio do MPA não é informativo — é um último aviso. Enquanto as autoridades federais definem próximos passos, as comunidades litorâneas já sentem o impacto iminente. A tainha pode desaparecer de nossas mesas. Mas isso é escolha, não fatalidade.
Exija transparência. Pressione seu representante. Apoie pescadores artesanais. O tempo da ação é agora — enquanto ainda há 10% de margem para mudar de rumo.
Fonte: @MPA_Br no X (Twitter)