Pecuária brasileira enfrenta crise silenciosa de saúde animal

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O Brasil, maior produtor de carne bovina do mundo, enfrenta uma ameaça invisível em seus currais. Animais enfermos, resíduos de produção mal gerenciados e vacinação insuficiente formam um cenário de risco sanitário que afeta milhões de cabeças de gado e compromete a segurança alimentar de consumidores brasileiros e internacionais. O Ministério da Agricultura reconhece o problema, mas a velocidade de resposta ainda está abaixo do necessário.

Enquanto o agronegócio brasileiro se vangloria de números recordes de exportação, uma realidade paralela se desenrola: fazendeiros pequenos e médios lutam com custos crescentes de vacinação, falta de informação técnica acessível e infraestrutura precária para descarte de resíduos. Quem ganha com essa negligência? Indústrias farmacêuticas internacionais que vendem soluções caras. Quem perde? O produtor rural e o consumidor final, que pagará mais caro no supermercado.

A luta diária de quem trabalha a terra

João da Silva, criador em Mato Grosso do Sul, conhece cada animal de seu rebanho pelo nome. Há cinco anos, observa com preocupação crescente: inflamações recorrentes, queda de produtividade, custos veterinários que consomem boa parte do seu lucro. Sua história não é isolada. Aproximadamente 2,7 milhões de pequenos e médios produtores rurais enfrentam desafios similares na vacinação preventiva e no manejo sanitário básico.

A questão que permanece sem resposta clara é: por que um país que exporta milhões de toneladas de proteína animal não investe proporcionalmente em educação sanitária para seus próprios criadores? E aqui está o ponto de ruptura: falta informação, falta acesso, falta política pública coordenada.

Por trás dos números: uma rede de negligência

A vacinação inadequada em rebanhos deixa brechas para doenças como brucelose e tuberculose bovina. Os resíduos da produção pecuária — sangue, vísceras, ossos — frequentemente são descartados sem critério ambiental, contaminando aquíferos e solo. Dados do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente revelam que apenas 34% dos estabelecimentos rurais possuem estrutura adequada para processamento de resíduos. Estruturalmente débil. Politicamente ignorado.

Quem se beneficia dessa falta de rigor? Empresas de processamento que cortam custos ignorando regulamentações. Indústrias farmacêuticas que vendem vacinas desorganizadamente, sem programa de cobertura real. Fundamentalmente, o sistema atual beneficia quem não investe, penalizando o produtor honesto.

O caminho que já provou funcionar

No estado de Santa Catarina, um programa piloto de integração entre sindicatos rurais, universidades federais e secretarias de agricultura mostrou resultados: 78% de aumento na cobertura vacinal em dois anos, redução de 45% em casos de doenças transmissíveis e, surpreendentemente, maior lucratividade para pequenos produtores. Como? Descentralizando a informação, oferecendo capacitação gratuita e criando redes de solidariedade entre criadores.

Nós precisamos replicar esse modelo nacionalmente. Nós temos tecnologia, expertise e vontade política — o que falta é articulação institucional e orçamento dedicado para levar informação de qualidade a quem trabalha no campo.

O que deve mudar agora

O Ministério da Agricultura e o Ministério do Desenvolvimento Agrário precisam lançar, nos próximos 90 dias, um programa nacional de vacinação com meta de 85% de cobertura em 18 meses. Criar força-tarefa para fiscalizar e regularizar o descarte de resíduos. Financiar, via Banco do Brasil, linhas de crédito específicas para pequenos produtores investirem em infraestrutura sanitária. Investir em educação continuada para veterinários e criadores.

O Brasil já demonstrou que consegue ser competitivo globalmente no agronegócio. Agora precisa provar que consegue fazer isso com responsabilidade sanitária, ambiental e social. A informação certa, na hora certa, chegando a quem produz. Esse é o diferencial que falta.

Animais mais saudáveis. Produtores mais lucrativos. Consumidores mais seguros. Tudo isso é possível quando a política pública escolhe investir em quem trabalha, em vez de apenas colher lucros de quem explora.

Fonte: @Mapa_Brasil no X (Twitter)

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