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O Ministério do Esporte divulgou nota oficial repudiando um episódio de misoginia ocorrido durante partida do Brasileiro Feminino Sub-20. O incidente expõe uma ferida que sangra há décadas no futebol brasileiro: a desigualdade de tratamento entre atletas mulheres e homens não acontece apenas nos salários ou na cobertura da mídia — acontece também na dignidade básica de jogar sem sofrer assédio.
O gesto do Ministério marca posicionamento político claro: não toleraremos retrocessos enquanto construímos espaço seguro para nossas meninas no esporte. Mas uma nota oficial é apenas o primeiro passo. A pergunta que fica é: quantos episódios assim precisam ser denunciados antes que transformemos estrutura completa que os permite?
Quando o campo vira arena de humilhação
Imagine ser uma adolescente de 19 anos, treinando há anos para representar seu país, e no momento de maior brilho da carreira, precisar ouvir comentários que a reduzem a gênero em vez de celebrar seu talento. Não é ficção. Aconteceu. Acontece. Acontecia antes de qualquer repúdio oficial.
Milhões de meninas brasileiras crescem vendo essas cenas e internalizando mensagem letal: esporte não é lugar para você. A cada episódio de misoginia em campo, perdemos potencial de centenas de atletas que desistem antes mesmo de começar. Nossas seleções ficam mais fracas. Nossa economia deixa dinheiro na mesa.
Mas há alternativa possível — e ela começa agora.
A estrutura invisível que alimenta o preconceito
Por que persiste misoginia em estádios e campos de futebol? Porque a cultura que a tolera é antiga, institucionalizada e lucrativa para quem detém poder. Durante décadas, o futebol feminino foi invisibilizado pela mídia, negligenciado por federações, financiado com migalhas enquanto homens recebiam fortunas.
Essa negligência estrutural criou solo fértil para o desrespeito. Quando você não investe em mulheres, não as coloca em primetime, não as celebra — está mandando sinal: elas não importam tanto. Os torcedores absorvem a mensagem.
Dados revelam magnitude do problema: enquanto a seleção masculina recebe investimento estratégico em infraestrutura e logística, categorias femininas ainda brigam por estruturas mínimas. E agora pergunta-se: como esperar respeito onde falta reconhecimento?
Responsabilidade tem nome e sobrenome
O Ministério do Esporte fez bem em pronunciar-se. Mas responsabilização exige mais que nota oficial. Precisamos identificar: quem proferiu os comentários? Qual clube estava envolvido? Que torcedores foram responsáveis? Tolerância zero não é slogan — é política de ação concreta.
Federações estaduais precisam implementar protocolos de denúncia obrigatória. Clubes devem banir agressores. Órgãos de segurança devem processar conforme lei. Comunicadores esportivos têm responsabilidade de amplificar denúncias em vez de minimizá-las.
O caminho que funciona existe
Argentina, Espanha e Portugal já avançaram em políticas de segurança no futebol feminino. Implementaram educação de torcedores, responsabilização de agressores, proteção legal específica. Resultado: crescimento contínuo de públicos, maior segurança, atletas que permanecem em carreira.
Nós podemos fazer o mesmo. Precisamos de investimento integrado: treinamento de seguranças em protocolos de gênero, campanhas educativas de torcida, legislação que proteja atletas mulheres com mesma rigidez usada para homens.
Isso não é favor. É reconhecimento de direito humano básico.
O que fazer agora
A nota do Ministério é começo necessário. Mas meninas brasileiras precisam de mais que palavras: precisam de garantia real que podem treinar, competir e vencer sem sofrer humilhação de gênero.
Pressione sua federação estadual. Exija que clubes pulem para ação. Denuncie episódios de misoginia. Acompanhe se houve responsabilização de envolvidos. Leve sua família para assistir jogos do futebol feminino.
Nossas filhas merecem campos onde talento é celebrado. Não tolerância.
Fonte: @EsporteGovBR no X (Twitter)