O presidente Luiz Inácio Lula da Silva lamentou nesta semana o falecimento de Marcus Barão, liderança que marcou uma geração inteira de ativistas políticos pela defesa da democracia e pela formulação de políticas públicas voltadas aos jovens brasileiros. A morte do ex-presidente do Conselho Nacional de Juventude representa não apenas uma perda pessoal, mas o encerramento de um capítulo importante da construção democrática no país.
Barão transcendeu a burocratacia estatal. Durante anos, ele conectou a voz dos jovens às estruturas de poder, traduzindo anseios de milhões em agendas concretas. Sua ausência marca um vazio nas articulações entre sociedade civil e governo — justamente quando a juventude brasileira enfrenta desemprego, precarização e crescente desencanto político.
A morte de uma ponte entre gerações
Marcus Barão não era um nome comum nos noticiários. Raramente aparecia em grandes manchetes. Mas quem trabalhou com políticas para jovens conhecia sua importância estrutural: Barão era aquele que traduzia demandas da rua em instrumentos de governo, que pressionava para que orçamentos fossem destinados a programas de qualificação, que garantia espaço de fala para lideranças juvenis historicamente invisibilizadas.
Aproximadamente 50 milhões de jovens entre 15 e 29 anos vivem os impactos diretos da ausência de lideranças como a de Barão. Sem intermediadores que entendem tanto a linguagem das ruas quanto os mecanismos de poder, políticas públicas viraram promessas vagas. A juventude negra, periférica, LGBTQIA+ — exatamente aquela que Barão priorizava — perde uma voz incômoda dentro do Estado. E isso importa.
Por que lideranças como Barão desaparecem do radar
A história brasileira é repleta de homens e mulheres que construíram democracia nos bastidores, longe das câmeras. Marcus Barão representa uma geração que viveu a ditadura militar na pele, que ocupou as ruas nos anos 1980, que depois escolheu trabalhar dentro das instituições — não por covardia, mas por estratégia. A aposta era simples: se não conseguíamos derrotar o sistema, ocuparíamos seus espaços.
Mas há um paradoxo silencioso aqui. Quanto mais essas lideranças ganham poder institucional, menos visíveis se tornam. A mídia não cobre gestores que fazem política pública funcionar. Cobrem escândalos, promessas vazias, confrontos. Não cobrem a paciência de quem negocia orçamento para educação ou moradia. Barão pagou esse preço invisível.
Quem lucra com essa invisibilidade? A resposta está nas estruturas que nunca precisaram de intermediadores: os que já têm acesso, os que frequentam ministérios sem precisar de porta-vozes, os que transformam política em mercadoria. A ausência de Barão abre espaço justamente para que essas forças avancem sem resistência. Mas como se reconstrói uma rede que levou décadas para ser tecida?
O que é possível fazer agora
A morte de Marcus Barão não precisa significar o fim dessa tradição. Nós — governo, movimentos sociais, juventude organizada — temos a responsabilidade de recuperar e ampliar o que ele construiu. Significa nomear jovens lideranças com poder real de decisão. Significa dar aos conselhos de juventude orçamentos que importem, não migalhas.
Em cidades como Porto Alegre e São Paulo, experiências de orçamento participativo envolvendo jovens mostraram resultados concretos: maior engajamento político, projetos que refletem reais demandas. O modelo existe. A questão é se temos disposição de replicá-lo em escala nacional, de honrar a vida de quem como Barão dedicou-se a isso.
O legado que exigimos lembrar
Marcus Barão nos deixa uma lição urgente: democracia não é uma conquista definitiva. É um trabalho cotidiano, muitas vezes anônimo, frequentemente ingrato. Lideranças como a dele morreram para que outros pudessem viver em liberdade — e agora morrem novamente, simbolicamente, quando esquecemos do seu trabalho.
O Brasil precisa reconstruir pontes entre jovens e poder público. Precisa valorizar lideranças que trabalham pela mudança dentro das instituições, sem render-se ao cinismo. Precisa reconhecer que política pública não é burocracia — é vida. É juventude com perspectiva de futuro.
Honrar Marcus Barão significa mais que uma homenagem. Significa exigir que seu trabalho continue. Exigir orçamentos para políticas de juventude. Exigir que jovens lideranças tenham assento real nas decisões que as afetam. Exigir que democracia não seja decoração, mas alimento diário. Essa é a responsabilidade que herdamos.
Fonte: @LulaOficial no X (Twitter)
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