Lula assina acordo que reescreve o jogo comercial Brasil-Europa

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva formalizou nesta quinta-feira o decreto de promulgação do Acordo de Comércio entre a União Europeia e o Mercosul, selando uma negociação que durou duas décadas e afeta 780 milhões de pessoas nos dois blocos econômicos. A assinatura marca o fim de um impasse que parecia congelado pela desconfiança mútua, pela pressão de setores protecionistas e por questões ambientais que dividiam Brasil e Europa.

Enquanto a elite agrícola brasileira celebra a abertura de mercados europeus para commodities, pequenos produtores, trabalhadores urbanos e comunidades indígenas enfrentam incertezas reais. O acordo promete crescimento econômico, mas redistribui ganhos e perdas de forma desigual: ganham exportadores de soja e carne; correm risco setores manufatureiros brasileiros expostos à concorrência europeia. Há quem lucre. Há quem pague.

A realidade nas mãos de quem trabalha

Maria da Silva, 38 anos, trabalha há 15 anos numa indústria de calçados em Novo Hamburgo, Rio Grande do Sul. Quando ouve falar em acordo com a Europa, não pensa em oportunidades abstratas. Pensa em preço. Pensa em se manter empregada. Sua fábrica compete com sapatos portugueses e italianos há décadas. Agora, com tarifas reduzidas, essa competição intensifica.

Ela não está sozinha. Aproximadamente 2,4 milhões de brasileiros trabalham em setores sensíveis à concorrência europeia: indústria de calçados, têxtil, máquinas e equipamentos, química fina. Para eles, o acordo não é celebração. É ameaça que exige política de proteção, formação técnica, reinvenção. O Estado precisa estar ao lado desses trabalhadores.

Duas décadas de negociação: por que agora?

A União Europeia e o Mercosul começaram a discutir integração comercial em 1999. Vinte anos depois, ainda não tinham assinado nada. Por quê? Porque havia interesses antagônicos demais para ignorar: Europa queria mercado para seus serviços, tecnologia e manufatura; Brasil e Argentina queriam garantias para agricultura; ambos temiam perder empregos domésticos.

Mas duas coisas mudaram nos últimos meses. Primeira: o cenário geopolítico. Com a guerra na Ucrânia, a Europa acelerou buscas por parceiros comerciais fora de seu entorno imediato. Segunda: o Brasil sob Lula sinalizou compromisso ambiental mais forte, reduzindo resistência europeia sobre desmatamento e queimadas. O acordo virou possível quando Brasil e Europa encontraram linguagem comum sobre floresta.

Mas um vácuo permanece: como garantir que compromissos ambientais serão respeitados? Como proteger trabalhadoras como Maria da Silva?

Quem decide, quem sofre

A negociação ficou nas mãos de tecnócratas, diplomatas, representantes de grandes corporações. Trabalhadores, pequenos produtores, indígenas tiveram participação marginal ou nula. Resultado: um acordo que beneficia exportadores de commodities e algumas grandes indústrias; deixa em segundo plano políticas sociais de transição para quem trabalha em setores vulneráveis.

Os números revelam a assimetria. Enquanto açúcar, carne e soja ganham acesso amplo ao mercado europeu, setores manufatureiros brasileiros recebem prazos longos de adaptação — alguns de até 15 anos. Isso significa desemprego concentrado num horizonte próximo; benefícios distribuídos ao longo de décadas.

O que nós podemos fazer agora

Esse acordo não é um destino fatalista. É um marco que abre possibilidades — mas exige ação estatal deliberada. Nós, coletivamente, podemos pressionar por políticas de reindustrialização verde: investimento em tecnologia limpa, bolsa de requalificação profissional para trabalhadores de setores ameaçados, expansão do ensino técnico em regiões afetadas.

Há caminhos internacionais já testados. A União Europeia financiou transição de trabalhadores de setores obsoletos durante sua própria integração. Nós podemos fazer o mesmo: criar fundos de desoneração, garantir renda mínima durante requalificação, incentivar pequenas e médias empresas a se modernizarem. Nós podemos ganhar com o acordo e proteger quem trabalha.

Síntese: o que está em jogo

O decreto de Lula abre mercados europeus — isso é real e importante. Mas abertura sem proteção social é aprofundamento de desigualdade. O próximo passo não é celebração vazia. É construção de política pública que transforme oportunidade em inclusão. Exige vigilância. Exige pressão.

Brasil e Europa assinaram. Agora precisa começar o trabalho de verdade: garantir que a prosperidade do acordo chegue até Maria da Silva, até o agricultor familiar, até as comunidades que pagam o preço da mudança. Essa é a tarefa política que define se este acordo é progresso ou apenas mais um contrato que enriquece de cima para baixo.

Fonte: @LulaOficial no X (Twitter)

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