Na noite desta segunda-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva transmitiu ao novo mandatário paraguaio, Pedro Alliana, um recado direto: cooperação sem subterfúgios. A mensagem não é apenas protocolar. Marca o reinício de uma relação bilateral que atravessa fronteiras econômicas, políticas e sociais entre Brasil e Paraguai, dois países que dividem mais do que geografia.
Lula não apenas cumprimentou. Ofereceu-se como parceiro em “abertura, franqueza e cooperatividade”. Três palavras que revelam o que o governo federal enxerga como faltante na relação entre os vizinhos: clareza nas intenções. Quando um presidente convida outro para trabalhar de forma “aberta e franca”, está dizendo que há espaço para reparar desconfianças anteriores.
O que muda com um novo governo ao sul
Mais de 3 milhões de brasileiros vivem em cidades próximas à fronteira com o Paraguai. Milhares trabalham em comércio bilateral, cruzam diariamente para estudar ou fazer negócios. Para eles, a qualidade da relação diplomática não é abstração: é pão na mesa.
Um novo presidente paraguaio representa também uma janela: mudança de equipes, redefinição de prioridades, possibilidade de resetar conflitos antigos. Alliana chega ao poder em contexto delicado. O Paraguai enfrenta pressões de grupos ilegais, instabilidade institucional e dependência comercial de parceiros maiores. A cooperação com o Brasil não é luxo. É estratégia de sobrevivência.
Mas por que Lula fez questão de sinalizar pessoalmente? Qual era o nó a desatar?
O histórico que pesa
A relação Brasil-Paraguai atravessou turbulências. Questões de soberania energética, controle da Itaipu Binacional, fluxo de contrabando e tráfico de drogas criaram tensões que vazam nos jornais e se aprofundam nos corredores governamentais. O Paraguai, historicamente, sentiu-se pressionado pelo gigante brasileiro. E o Brasil, frequentemente, viu-se refém de instabilidades no vizinho.
Alliana herda um país fragmentado. Uma elite política dividida. Uma segurança pública em colapso. Precisa de aliados reais. Lula, ao seu turno, reconstrói uma América do Sul onde o Brasil não é potência isolada, mas líder que convida à mesa.
A pergunta que fica: será que essa cooperação avança para acordos concretos de combate ao crime transnacional e integração econômica?
O que é possível fazer junto
Nós — brasileiros, paraguaios, vizinhos — vivemos em um continente onde a integração é ainda promessa, não realidade. Mas há modelos. O Mercosul existe. O comércio bilateral cresce mesmo sob tensão. A Itaipu, apesar de conflitos históricos, segue gerando energia para ambos os países.
Cooperação em segurança pública é possível. O Brasil e Paraguai compartilham desafios idênticos: facções criminosas que não respeitam fronteiras, tráfico que une os dois territórios numa malha invisível mas real. Trabalho conjunto não é favor. É sobrevivência mútua.
Lula já fez isso antes. Construiu pontes onde havia trincheiras. Chamou adversários para conversa de porta aberta. O método nunca garantiu unanimidade, mas criou espaço onde antes havia apenas desconfiança.
O que está em jogo agora
Pedro Alliana tem 48 horas pela frente repletas de convites. Potências globais vão buscá-lo. Pressões internas vão cercá-lo. A escolha dele sobre com quem trabalhar — se abre para o Brasil ou se afasta — será lida em Brasília como sinal. Lula está oferecendo a mão primeiro. Gesto que marca posição.
A população de ambos os países não quer discurso. Quer resultado. Quer que a fronteira seja menos letal. Quer que oportunidades de trabalho cresçam. Quer que a integração não seja apenas comercial, mas humana. Que famílias possam se mover sem medo. Que crianças estudem onde queiram.
Isto não é romântico. É pragmático.
O caminho que se abre
Os próximos meses dirão tudo. Se Alliana responde ao convite de Lula com ações — acordos de segurança, facilitação comercial, diálogo com movimentos sociais binacionais — o sul do Brasil respira. Se recua para isolacionismo ou se deixa capturar por pressões externas, voltamos ao quadro de desconfiança.
Nós sabemos o caminho. Já o trilhamos antes. Agora é questão de escolher: seguir isolados, ou caminhar juntos. Lula ofereceu o convite. A resposta cabe ao Paraguai.
Fonte: @LulaOficial no X (Twitter)