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O Ministério do Desenvolvimento Social anunciou a expansão do atendimento presencial nas unidades responsáveis pelo Cadastro Único — banco de dados que define quem entra ou sai do Bolsa Família. A medida soa como avanço democrático, mas esconde uma lógica perversa: quanto mais necessitado você é, menos fácil fica acessar o programa que poderia te ajudar.
Na prática, famílias em situação de extrema pobreza — justamente as que mais precisam de regularização cadastral — continuam enfrentando barreiras burocráticas que as excluem. Quem já está dentro do sistema ganha conveniência; quem está fora ou sob suspeita de “irregularidades” segue batendo em portas fechadas. Isso não é modernização. É seletividade travestida de facilitação.
Quando a porta se abre apenas para quem menos precisa
Dona Maria, 67 anos, mora numa comunidade do subúrbio de Salvador. Seu neto depende do Bolsa Família para comer. Precisava atualizar seu cadastro, mas descobriu que estava em “apuração de indício de irregularidade” — um termo vago que a mantém pendurada entre estar dentro ou fora do programa. Ela não conseguiu fazer isso presencialmente. Precisou tirar dia de trabalho, pagar passagem, lidar com telefonemas e esperar indefinidamente.
Dona Maria é apenas uma entre 14 milhões de brasileiros que dependem do Bolsa Família para sobreviver. Muitos vivem o mesmo labirinto burocrático que ela. A promessa de atendimento presencial não alcança quem mais sofre as consequências da exclusão.
Por que o acesso permanece bloqueado exatamente onde mais falta
Essa configuração não é acidental. O Cadastro Único funciona como um mecanismo de controle social — define quem merece assistência e quem não merece. Quando o governo restringe o atendimento presencial para famílias em averiguação ou investigadas por “irregularidades”, ele cria um efeito desejado: desestimula quem está na margem a tentar se regularizar.
O argumento da administração é sempre o mesmo: combater fraudes. Mas qual é o custo social dessa vigilância permanente? Quantas famílias deixam de acessar direitos por medo, vergonha ou falta de informação? A pergunta que ninguém quer responder é: para quem, exatamente, esse sistema está sendo otimizado?
Quem manda e o que realmente está em jogo
O Ministério do Desenvolvimento Social responde pelo programa, mas as decisões sobre quem fica suspeito e quem fica seguro passa por critérios opacos. Fraude existe? Sim. Mas existem também 2,5 milhões de inscrições no CadÚnico que carecem de atualização há mais de dois anos — gente que não consegue nem se aproximar da máquina estatal porque as portas estão viradas.
O que está em jogo é o poder de decidir: quem entra, quem sai, quem espera. Enquanto isso, famílias permanecem num limbo burocrático que as deixa ainda mais vulneráveis.
O caminho que já provou funcionar
Alguns municípios experimentaram modelos diferentes: agentes comunitários que vão até as famílias, atendimento simplificado para atualizações rotineiras, presunção de boa-fé em vez de presunção de fraude. Os resultados? Mais inclusão, menos burocracia, menos exclusão por erro administrativo.
Nós precisamos de um Cadastro Único que trabalhe para as pessoas, não contra elas. Isso significa investir em canais de atendimento próximos, em processos transparentes, em ferramentas que facilitem quem está fora em vez de complicar ainda mais.
O que fazer agora
A expansão do atendimento presencial é bem-vinda, mas insuficiente. Exija do seu município: onde ficam as unidades de atendimento do CadÚnico? Por que famílias em apuração não conseguem marcar presencialmente? Quanto tempo leva para sair de uma “averiguação”? Essas respostas definem quem entra ou sai da rede de proteção social.
Nós temos direito a um sistema que inclua, não que exclua. Chegou a hora de cobrar isso.
Fonte: @mdsgovbr no X (Twitter)