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A volta que muda o tabuleiro
O Brasil acaba de ocupar um assento na Cúpula do G7 em Evian — espaço historicamente dominado pelos sete países mais ricos do mundo — levando pela primeira vez a agenda completa do Sul Global para dentro dessa negociação. Não é convite de cortesia. É reposicionamento geopolítico.
Enquanto nações ricas discutem entre si como dividir influência e recursos, Lula entra na sala com proposta diferente: multilateralismo que inclua quem foi sistematicamente excluído. Para 4,2 bilhões de pessoas vivendo em economias emergentes, essa presença brasileira representa a possibilidade concreta de que suas vozes finalmente alcancem as mesas onde decisões sobre clima, desenvolvimento e paz são tomadas.
O que mudou desde que o Brasil saiu
A última participação brasileira em estruturas de decisão global de primeiro nível havia sido enfraquecida nos últimos anos. O país estava fora da conversa estratégica. Enquanto isso, a guerra na Ucrânia reconfiguraria alianças, a crise climática acelerava e as economias do Sul clamavam por espaço nas negociações que as afetam diretamente.
Macron, presidente francês, reconhece uma realidade que os antigos líderes do G7 demoraram a aceitar: um clube fechado é um clube sem legitimidade no século 21. O sul global não é apêndice. É mercado, é população, é solução.
Por que isso importa agora
A Cúpula de Evian acontece enquanto o mundo debate quem financia a transição energética dos países em desenvolvimento. Quem paga pela adaptação climática? Quem controla as tecnologias verdes? Como o comércio global se reorganiza sem os padrões de exploração do século passado?
Essas perguntas só ganham respostas justas se quem as vive está na mesa. Um agricultor no Mato Grosso afetado pela seca. Uma família ribeirinha na Amazônia. Uma comunidade indígena defendendo floresta que produz o oxigênio do planeta. Eles ganham voz quando o Brasil não apenas participa — quando participa levantando bandeiras que ninguém mais quer levantar.
Mas quem ainda acredita que os ricos cedem poder por gentileza?
A resistência que ninguém menciona
Os mesmos países que construíram riqueza através da exploração colonial agora precisam negociar com aqueles que exploraram. A contradição é brutal. O G7 original defendia que desenvolvimento sustentável custaria menos se os emergentes ficassem fora da conversa. Agora descobre que custa mais ainda.
Dados concretos: países do Sul Global representam 85% do crescimento econômico mundial nos próximos dez anos. Sem eles na mesa de decisões, qualquer acordo sobre clima ou comércio é papel molhado. O Brasil sabe disso. Macron também. Os outros? Ainda estão processando.
O que é possível quando incluímos quem foi deixado de fora
Nós já vimos funcionar. A Cúpula de Copenhague de 2009 fracassou porque excluiu vozes do Sul. Os Acordos de Paris funcionaram melhor porque incluíram. Quando Brasil, Índia, China e África sentam como protagonistas e não como ouvintes, as soluções mudam de qualidade.
Defesa do multilateralismo não é discurso bonito. É o reconhecimento prático de que um mundo multipolar é mais estável, mais justo e — surpreendentemente para quem lucrava com o unipolarismo — mais próspero para todos.
Nós podemos construir acordos globais onde o Brasil não pede permissão mas oferece soluções. Onde a Amazônia não é tema de pena, mas de respeito. Onde o desenvolvimento sustentável é caminho de verdade, não marketing.
O próximo passo
A presença em Evian é abertura, não conclusão. O que importa agora é o que sai dessa Cúpula. Acordos concretos? Compromissos financeiros? Respeito real ao multilateralismo ou apenas fotografia diplomática?
O Brasil tem que voltar dessa negociação com ganhos tangíveis para quem mais precisa: financiamento climático vinculado, tecnologia verde transferida, voz permanente em decisões que afetam o futuro do planeta. Não para ficar na sala. Para mudar as regras da sala.
Isso é o que o Sul Global agora espera. Esse é o peso dessa volta.
Fonte: @LulaOficial no X (Twitter)