A Embrapa Cerrados abre, amanhã, as portas de um evento que promete fazer o Brasil experimentar a si mesmo — literalmente. A Feira Brasil na Mesa chega à Planaltina (DF) a partir de amanhã (23 de abril) para celebrar os saberes ancestrais e a sociobiodiversidade de um país que, frequentemente, ignora sua própria riqueza culinária e cultural. Funciona até o dia 25, sempre com acesso ao público.
Por trás dessa celebração gastronômica existe uma disputa política silenciosa. Enquanto corporações agroindustriais investem bilhões em monoculturas, pequenos produtores, povos indígenas e comunidades locais preservam uma biodiversidade que alimentou — e segue alimentando — milhões de brasileiros. A feira não é apenas um cardápio. É um ato de resistência.
Quando o prato conta histórias que o agronegócio quer calar
Dona Maria, agricultora familiar do Vale do Jequitinhonha, planta tucupi há trinta anos — conhecimento transmitido por sua avó, que o aprendeu com indígenas. Seu tucupi não viraliza nas redes sociais. Não tem selo de orgânico importado. Mas alimenta sua comunidade com segurança nutricional que nenhuma indústria de ultraprocessados consegue replicar. Milhões de brasileiros vivem essa realidade invisível: dominam técnicas ancestrais de produção e conservação que transformam ecossistemas inteiros em larder vivo.
Por que isso importa agora?
A biodiversidade que o Brasil esqueceu de valorizar
O Brasil detém 13% de toda a biodiversidade terrestre do planeta. Num único bioma — o Cerrado — encontram-se plantas alimentícias que nutriram populações inteiras por séculos. Mas enquanto isso, 70% da renda agrícola segue concentrada em três commodities: soja, milho e cana. Pequenos produtores agroecológicos representam menos de 1% do financiamento agrícola total, apesar de alimentarem 70% da população brasileira com itens da cesta básica.
Há uma lógica econômica perversa aqui. Quanto mais a indústria alimentar centraliza, menos espaço existe para quem cultiva diversidade. Quando a alimentação se concentra, a vulnerabilidade cresce. Uma seca no Cerrado, uma praga na monocultura — e sistemas alimentares inteiros desabam. O conhecimento ancestral, ao contrário, é resiliente por design.
O que está em jogo: quem lucra, quem produz, quem come
A Feira Brasil na Mesa não é uma iniciativa isolada. Ela integra uma estratégia governamental clara: reconhecer, documentar e ampliar os saberes que grandes corporações agrícolas tentam apagar do mapa. Quando a Embrapa — instituição federal de pesquisa — monta uma plataforma para celebrar sociobiodiversidade, está fazendo duas coisas ao mesmo tempo: valorizar o trabalho invisível de pequenos produtores e questionar o modelo que os marginaliza.
Porque aqui está a contradição que ninguém diz em voz alta: enquanto comida ancestral é tratada como “tradição folclórica”, ela segue sendo a base real da segurança alimentar nacional. Os mesmos sistemas que o agronegócio industrial chama de “ineficientes” foram capazes de alimentar civilizações por milênios.
Como nós revertemos essa invisibilidade
Eventos como esse funcionam porque fazem o óbvio explodir: comida de verdade existe. Saberes ancestrais não são museu — são ciência viva, praticada todo dia por mulheres e homens do campo que merecem reconhecimento econômico, não apenas simbólico. Nós conseguimos ampliar isso. Em estados como Bahia e Mato Grosso do Sul, políticas de compra governamental para alimentação escolar já privilegiam produtores agroecológicos e indígenas. O resultado: crianças comem melhor, produtores ganham renda estável, ecossistemas se recuperam.
A Feira Brasil na Mesa é um convite para que mais brasileiros entendam: sua própria alimentação pode ser ato político. Pode fortalecer comunidades. Pode preservar florestas. Pode ser, simplesmente, soberano.
Venha provar que outro Brasil é possível
Amanhã, Planaltina recebe quem quiser ver — e comer — a prova de que o Brasil real não está em comerciais de TV. Está em um prato de tucupi preparado com o conhecimento de gerações. Está em frutas do Cerrado que ninguém conhece o nome. Está em receitas que transformam o que parecia descartável em refeição sagrada.
Vá. Leve amigos. Prove. E quando voltar para casa, saiba que você acabou de participar de uma disputa — silenciosa, mas urgente — sobre o tipo de Brasil que nós vamos herdar.
Feira Brasil na Mesa: Embrapa Cerrados, Planaltina (DF). Amanhã (23 de abril) a partir das 13h. Dias 24 e 25, a partir das 9h. Entrada gratuita. A comida ancestral espera por você.
Fonte: @mdagovbr no X (Twitter)
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