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O governo reconhece o que o país já sabe: temos um povo criativo sem igual. Mas reconhecer não é o mesmo que sustentar. Enquanto a narrativa oficial celebra a produção cultural brasileira — como evidencia a plataforma Tela Brasil ao destacar obras como “Na Ponta do Palito” (2023) — a indústria que alimenta esses talentos enfrenta cortes orçamentários e falta de políticas estruturantes de longo prazo.
A criatividade cultural é um bem público e um ativo econômico que gera empregos, exportações e esperança. Quem se beneficia quando apostamos nela? Produtores, roteiristas, atores, técnicos — milhões de brasileiros que vivem dessa cadeia. Quem perde quando o investimento desaparece? Os mesmos. A diferença entre celebrar a cultura e protegê-la é a diferença entre discurso e ação.
Quando a criatividade encontra o rosto de quem cria
Maria é roteirista em São Paulo. Ganhou um prêmio municipal aos 28 anos, mas ainda precisa de um emprego paralelo para pagar aluguel enquanto escreve seus roteiros. Sua história é a de centenas de milhares de profissionais da cultura no Brasil que trabalham por paixão, não por garantia econômica. Quando uma plataforma de streaming brasileiro lança um filme de qualidade como “Na Ponta do Palito”, não estamos vendo apenas a obra — estamos vendo o rosto invisível de quem a criou trabalhando sob pressão financeira.
A indústria audiovisual brasileira movimenta bilhões, mas os recursos públicos que deveriam democratizar o acesso aos meios de produção seguem concentrados ou insuficientes. Nós conhecemos a solução: é preciso expandir e descentralizar os investimentos culturais para que a criatividade não seja privilégio de quem pode se manter financeiramente enquanto constrói carreira.
Por que uma nação criativa fica sem oxigênio
O Brasil não inventou a escassez cultural. Herdou uma lógica: a cultura é luxo, não necessidade. Mas os números contam outra história — a indústria criativa representa aproximadamente 2,6% do PIB nacional e emprega 1,7 milhão de pessoas, segundo dados recentes do setor. Mesmo assim, o financiamento público segue fragmentado entre órgãos, programas descontinuados e orçamentos que não acompanham a demanda.
A Tela Brasil, plataforma que deveria ser um exemplo de investimento estruturado em audiovisual, ainda opera como iniciativa pontual — admirável em sua execução, limitada em seu escopo. Por que uma nação que produz conteúdo competitivo globalmente depende de plataformas estrangeiras como principal canal de distribuição? A resposta está em quem toma decisões sobre investimento e em quem se beneficia quando não investimos em nós mesmos.
Nomear quem decide, medir quem sofre
O Ministério da Cultura existe. Tem orçamento. E há escolhas sendo feitas todos os dias sobre quanto recursos destinam a programas de desenvolvimento de talentos, produção independente e distribuição de conteúdo brasileiro. Essas escolhas não caem do céu — são decisões políticas concretas.
Falta. É isso que define o cenário atualmente — não falta criatividade, falta garantia. Enquanto isso, plataformas internacionais lucram com conteúdo brasileiro produzido por profissionais que não têm sequer seguro-desemprego protegido.
O que muda quando decidimos apostar de verdade
Sabemos como funciona porque já vimos funcionando. Países como México e Argentina ampliaram seus investimentos em audiovisual e hoje exportam talentos e conteúdo em escala. Não é mágica — é orçamento, linhas de crédito acessível, incentivos para produção independente, formação técnica de qualidade.
Nós podemos fazer o mesmo. Expandir a Tela Brasil como plataforma permanente de financiamento e distribuição. Criar programas de residência criativa em cidades que não têm acesso a recursos de produção. Garantir que quem cria receba pelo seu trabalho — não por caridade, por justiça econômica.
A hora de deixar de celebrar e começar a construir
“Nossa cultura é abençoada” é verdade. O povo é criativo? Sim. Mas bênção e criatividade não pagam contas. O governo está certo em reconhecer a riqueza cultural brasileira — agora precisa transformar esse reconhecimento em política com sustentação financeira, coordenação entre ministérios e compromisso plurianual.
A pergunta não é se o Brasil tem cultura. A pergunta é: quanto estamos dispostos a investir naqueles que a criam? A resposta determina se os próximos talentos brasileiros vão permanecer aqui ou buscar oportunidades melhores no exterior.
Compartilhe essa reflexão. Pressione seus representantes para detalhar: quanto dos orçamentos municipais, estaduais e federais vai efetivamente para criar condições econômicas reais para artistas e profissionais da cultura? Porque dados bonitos e plataformas bem-intencionadas só mudam a história se forem acompanhados por dinheiro que fica. Dinheiro que sustenta. Dinheiro que permite que brasileiro criativo continue sendo brasileiro criativo — e vivo.
Fonte: @CulturaGovBr no X (Twitter)