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Entre janeiro de 2023 e julho de 2026, beneficiários e beneficiárias do Bolsa Família foram responsáveis por 85% de toda a criação líquida de empregos formais no Brasil. O dado, revelado por estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV), expõe uma realidade que o mercado tradicional prefere ignorar: quem mais gerou ocupação com carteira assinada nos últimos três anos não foram as grandes corporações ou startups em alta, mas trabalhadores e trabalhadoras em situação de vulnerabilidade social que recebem o programa de transferência de renda do governo federal.
A constatação inverte a narrativa conservadora que estigmatiza programas sociais como empecilho ao desenvolvimento econômico. Ao contrário: são justamente os beneficiários do Bolsa Família que estão movimentando o mercado formal, gerando renda, pagando impostos e formalizando-se. Significa dizer que a política social não apenas distribui dinheiro — ela catalisa a própria formalização que o mercado deveria providenciar sozinho.
Quem são essas pessoas que transformam o mercado de trabalho
Maria trabalha há dois anos em uma confeitaria no subúrbio de São Paulo. Quando recebeu a aprovação no Bolsa Família, a renda extra permitiu que ela investisse em uma certificação profissional. Hoje, ela é supervisora. Sua história não é exceção. Milhões de brasileiros e brasileiras vivem essa mesma trajetória: a segurança da renda transferida abre espaço para qualificação, busca de melhores postos, formalização do trabalho precário.
O perfil traçado pela FGV revela concentração em setores de serviços, comércio e construção civil. São homens e mulheres entre 25 e 45 anos, majoritariamente pretos e pardos, residindo em periferias urbanas e cidades do interior. Isso é fundamental entender: não são beneficiários passivos. São agentes econômicos que, quando dotados de renda estável, transformam suas próprias condições.
Por que o Brasil estava criando empregos errados
Antes do Bolsa Família, a economia brasileira criava empregos. Mas que tipo de emprego? Há uma década, a maioria das novas ocupações era precária, informal, temporária. O mercado tradicional — financeiro, tecnológico, industrial — continuava seletivo, exigindo escolaridade formal que a população vulnerável não conseguia atingir sozinha.
A contradição é clara: o Brasil criava postos, mas não dignidade. A transferência de renda quebrou esse padrão. Quando você fornece segurança econômica a quem vive à margem, essa pessoa deixa de aceitar qualquer oferta e passa a escolher. A escolha, por sua vez, força o empregador a oferecer melhores condições. É mecânica de mercado, não assistencialismo.
Mas por que isso surpreende os analistas econômicos convencionais?
Os atores que lucram com a invisibilidade dessa política
Bancos, fundos de investimento e grandes empregadores tinham interesse em manter trabalhadores desesperados, dispostos a aceitar qualquer salário. Programa social robusto ameaça essa dinâmica. Por isso, durante anos, o discurso hegemônico descreveu o Bolsa Família como custo fiscal ineficiente. Números mentem quando convém.
A FGV provou o oposto com dados. Não é opinião. É fato verificável que quem sustentou o emprego formal nos últimos três anos foram os beneficiários do programa. A responsabilidade, então, recai clara: quem negou recursos para expansão dessa política escolheu deliberadamente criar menos empregos formais.
O que é possível fazer agora
Nós, brasileiros e brasileiras, podemos expandir essa lógica. Se 85% dos novos empregos formais já vêm de beneficiários do Bolsa Família, imagine o potencial se aumentássemos o número de beneficiários e elevássemos os valores transferidos. Portugal, Chile e Uruguai já demonstraram que programas mais robustos geram dinâmicas ainda mais virtuosas de formalização.
A política pública não é escolha entre distribuição e desenvolvimento. O Bolsa Família provou ser ambas. Nós podemos aumentar investimento. Nós podemos financiar qualificação profissional para esses trabalhadores. Nós podemos, enfim, construir um mercado de trabalho onde a dignidade não dependa de exploração.
O Brasil que os dados revelam
Oito em cada dez empregos formais criados nos últimos três anos vieram de quem o sistema fingiu não ver. Essa é a história real da economia brasileira — não a das grandes corporações em suas torres de vidro, mas a dos trabalhadores que, com renda mínima garantida, conseguem sair da informalidade e reconstruir suas vidas.
O momento é este: expandir o programa, aumentar valores, integrar política de transferência com qualificação profissional. Nós temos números. Nós temos evidência. O que falta é vontade política para fazer dos próximos três anos ainda melhores que os últimos. A bola está no campo dos que governam. A resposta, urgente.
Fonte: @mdsgovbr no X (Twitter)