O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou na última semana da celebração dos 70 anos da Anfavea, a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores. O evento marca um momento delicado para o setor: enquanto o Brasil debate seu futuro econômico, 26 grandes empresas controlam a produção de veículos e máquinas agrícolas que movem a indústria nacional. A presença presidencial sinaliza aposta estratégica no segmento.
Nos últimos anos, a indústria automotiva brasileira enfrentou crises sucessivas—desemprego em massa, fechamento de fábricas, sucateamento tecnológico. Agora, com sinais de retomada, o governo federal escolhe abraçar o setor como locomotiva de geração de renda e emprego. Mas a pergunta que circula nos corredores do Palácio do Planalto permanece: será suficiente apenas celebrar o passado, ou é urgente reinventar o futuro?
Quando a fábrica fecha, a família inteira sente
Maria trabalhou 22 anos numa linha de montagem no interior de São Paulo até 2020, quando a fábrica reduziu turnos. Seu caso não é isolado: cerca de 140 mil trabalhadores deixaram a indústria automotiva brasileira na última década, segundo dados do setor. Cada demissão carrega histórias de hipotecas inacabadas, filhos tirados da escola particular, dignidade erosionada. Mas também representa uma chance perdida: talentos, conhecimento técnico, produtividade que poderiam estar gerando riqueza coletiva.
A Anfavea reúne empresas que empregam direta e indiretamente mais de 1,5 milhão de pessoas. Quando essas 26 companhias crescem, cresce também a possibilidade de escola melhor, saúde acessível, acesso a crédito para quem trabalha. Isso não é paternalismo. É matemática econômica simples.
Por que a indústria automotiva importa agora?
A resposta está na transição energética global. Enquanto montadoras chinesas e europeias correm para dominar o mercado de veículos elétricos, o Brasil ainda depende de tecnologia importada. A Anfavea representa empresas multinacionais que têm acesso a essa inovação—mas também têm poder de escolha sobre onde investem. Investem na China, na Hungria, ou aqui? Eis a questão que determina empregos locais. A presença de Lula no evento funciona como sinalização: o Brasil quer ser destino, não museu do século XX.
Mas há uma contradição invisível: as 26 empresas da Anfavea responderam por apenas 62% da produção veicular brasileira em 2022. O resto vem de montadoras menores, fabricantes de peças, startups de mobilidade. O setor é mais fragmentado e democrático do que as celebrações permitem enxergar. Por que tantos holofotes sobre apenas 26 empresas?
Nomes, números e responsabilidades
Volkswagen, General Motors, Ford, Fiat, Hyundai, Renault, Honda, Toyota—essas não são apenas marcas. São corporações globais que definem investimento, emprego, tecnologia em território brasileiro sem necessariamente responder a prioridades de desenvolvimento nacional. Quando a GM fechou a fábrica de São Caetano do Sul em 2019, demitiu 5 mil pessoas. Nenhuma negociação coletiva fez diferença. Isso mudou?
A questão não é xenófoba. É de soberania econômica.
O que é possível fazer diferente
Nós—governo, empresas, trabalhadores, sociedade—podemos exigir contrapartidas reais em troca de acesso ao mercado brasileiro. Investimento em pesquisa e desenvolvimento de tecnologias limpas. Compromissos públicos de emprego e salário. Transferência de conhecimento para a cadeia de fornecedores locais. A Coreia do Sul fez exatamente isso: condicionou mercado a tecnologia. Hoje, a Hyundai é potência global porque foi forçada a inovar em casa.
O Brasil tem mercado consumidor de 215 milhões de pessoas. Tem mão de obra qualificada. Tem ambição de ser potência em energia renovável. Esses são trunfos para negociar, não para ceder.
O que muda agora
A presença presidencial na Anfavea não é apenas cortesia corporativa. É sinalização de que o governo reconhece a indústria automotiva como setor estratégico. Mas reconhecer não é suficiente. Agora vem a parte difícil: exigir que esse reconhecimento se converta em empregos duráveis, salários que permitam vida digna, inovação brasileira, não apenas montagem de peças importadas.
Nós precisamos que essa celebração dos 70 anos da Anfavea seja apenas o pontapé inicial de uma negociação séria. Trabalhadores, sindicatos, gestores estaduais devem estar à mesa. Não como espectadores da história. Como protagonistas.
A indústria automotiva pode voltar a ser o que foi: motor de mobilidade social. Mas apenas se exigirmos que funcione assim.
Fonte: @LulaOficial no X (Twitter)