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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva enviou mensagem de congratulações a Andy Burnham, novo Primeiro-Ministro do Reino Unido eleito pelo Partido Trabalhista, reafirmando o compromisso brasileiro em aprofundar relações bilaterais que ultrapassam dois séculos de história compartilhada. A movimentação diplomática acontece em momento crítico para a articulação de alianças progressistas globais, onde governos de esquerda buscam fortalecer blocos econômicos e políticos alternativos.
A troca de mensagens não é meramente protocolar. Representa um posicionamento estratégico do Brasil em favor de aproximações com democracias trabalhistas europeias, num contexto onde forças conservadoras ganham terreno no continente. Burnham, que já liderava Manchester como prefeito, chega ao poder britânico com agenda de redistribuição de renda e investimento em infraestrutura — alinhada com a narrativa desenvolvimentista que Lula busca consolidar internacionalmente.
Quando diplomacia torna-se oportunidade econômica
A relação Brasil-Reino Unido não é apenas histórica. É negócio concreto. Milhões de brasileiros trabalham ou estudam em solo britânico enquanto empresas brasileiras operam em setores estratégicos como energia renovável, agronegócio e tecnologia. Qualquer ressecamento dessa ponte afetaria emprego, investimento direto e oportunidades educacionais para uma classe média brasileira que vê na Europa um espaço de mobilidade.
Mas há algo que permanece invisível nos protocolos oficiais. E se essa parceria pudesse funcionar para além dos interesses de elites?
O cenário que ninguém fala sobre
Há 15 anos, Brasil e Reino Unido assinaram acordos de cooperação. Resultou em quê? Pesquisa científica colaborativa em mudanças climáticas, sim. Intercâmbio universitário para poucos selecionados, sim. Mas políticas de transferência de tecnologia verde que beneficiassem pequenos produtores rurais brasileiros? Reforma agrária apoiada por capitais britânicos progressistas? Esses capítulos nunca foram escritos. Por quê?
Porque as estruturas de parceria internacional tendem a replicar desigualdades existentes. Favorecem grandes corporações, governos centralizados, acordos que cabem em memorandos. Excluem exatamente quem mais precisaria: trabalhadoras domésticas brasileiras no exterior, pequenos produtores, comunidades tradicionais que dependem de tecnologia sustentável.
O que muda com um governo trabalhista britânico
Andy Burnham não é um Primeiro-Ministro aleatório. Durante seus anos em Manchester enfrentou austeridade do governo conservador e construiu coalização de cidades contra cortes sociais. Esse histórico importa. Um Reino Unido sob liderança trabalhista tem potencial para repensar como coopera com Brasil: menos extração, mais compartilhamento de tecnologia; menos financeirização, mais investimento em infraestrutura pública.
Nós, como sociedade brasileira, podemos exigir que essa parceria tenha marcadores de sucesso populares. Quantos cursos de formação profissional em energia renovável para brasileiros? Quantas bolsas para jovens periféricos estudarem em universidades britânicas? Qual será o compromisso com trabalho decente nas cadeias globais que envolvem ambos os países?
A ação que determina se isso é retórica ou realidade
Lula cumpre seu papel ao felicitar Burnham e sinalizar continuidade diplomática. Mas o teste verdadeiro virá quando Brasil e Reino Unido se sentarem à mesa para renovar seus acordos. Se permitirmos que funcionários façam negociações nos moldes antigos — fechados, tecnocráticos — estaremos reproduzindo o padrão de 15 anos atrás.
A alternativa é uma: exigir que essa parceria seja instrumentalizada para reduzir desigualdades, não apenas para gerenciá-las. Transparência nas negociações. Consulta prévia com povos originários e comunidades afetadas. Compromissos mensuráveis em tecnologia climática que beneficiem pequenos produtores. Um novo modelo de cooperação Sul-Norte que reconheça que ambos os países têm trabalhadores cuja vida depende de cada acordo assinado.
A diplomacia progressista não é apenas troca de mensagens cordiais entre líderes. É transformação material da vida de quem trabalha. Essa conversa entre Brasil e Reino Unido pode começar agora — mas só se nós insistirmos que comece de verdade.
Fonte: @LulaOficial no X (Twitter)