Comemorado no último dia 25, o Dia da Indústria ganhou peso político com o Fórum Nova Indústria Brasil (NIB), realizado no BNDES, no Rio de Janeiro. O evento reuniu líderes do governo e do setor produtivo para debater o papel da indústria na transição ecológica — tema que não é só tendência global, mas urgência estratégica para o Brasil. Dados do IBGE mostram que, enquanto a participação da indústria no PIB segue em declínio (13,2% em 2023 contra 15,5% em 2010), a pressão por sustentabilidade cresce de forma inversamente proporcional. A pergunta que paira é: a economia circular pode ser a chave para destravar o novo ciclo de crescimento industrial no país?
Contexto: Desindustrialização X SustentabilidadeO Brasil vem sofrendo uma lenta e contínua desindustrialização nas últimas décadas. Segundo a CNI, de 2010 a 2023, o país perdeu cerca de 8 mil indústrias de transformação. Paralelamente, o mundo acelerou a corrida verde: o Pacto Verde Europeu já impõe restrições ambientais às exportações, e as cadeias globais exigem cada vez mais rastreabilidade e reciclagem. Nesse cenário, a economia circular — baseada em reaproveitamento de materiais e redução de resíduos — emerge como alternativa viável à reindustrialização sustentável.
Dados e Iniciativas: O Que Está Sendo FeitoDurante o painel “Indústria e Economia Verde”, o presidente da ABDI, Ricardo Cappelli, apresentou projetos estratégicos com foco em economia circular. O Recircula Brasil, por exemplo, já foi reconhecido pela ONU e premiado no Fórum Mundial de Economia Circular (WCEF) como referência em rastreamento de recicláveis via nota fiscal eletrônica.Veja a seguir os números apresentados:
Além disso, há negociações com a Abal, Abividro e Abit para expandir a certificação para alumínio, vidro e têxteis — setores com grande potencial de reaproveitamento de materiais.
Impacto Político e Econômico: Quem Ganha Com Isso?
A política industrial verde tem potencial para destravar gargalos e reposicionar o Brasil nas cadeias globais, mas o sucesso depende de articulação institucional e financiamento robusto. A ideia de cortar intermediários e incluir cooperativas de catadores na cadeia formal pode gerar renda, reduzir desigualdades e cumprir metas ambientais ao mesmo tempo — é triplo ganho.
No plano político, isso também gera capital simbólico: ajuda o governo a mostrar entregas concretas na agenda ESG, tema que mobiliza a sociedade e o mercado. Ao mesmo tempo, o uso de inteligência artificial para desburocratizar a ANM e acelerar o licenciamento de minerais estratégicos mira diretamente o coração da transição energética global — baterias, painéis solares, carros elétricos dependem desses insumos.
Projeções e Tendências: Oportunidade ou Ilusão?
Especialistas ouvidos pelo Ipea apontam que o Brasil pode gerar até 1,5 milhão de empregos verdes até 2030 se adotar políticas industriais orientadas à sustentabilidade. Mas alertam: sem escala, os pilotos como o Recircula Brasil não bastam.
O desafio está em estruturar políticas públicas de larga escala, que integrem inovação, crédito e qualificação de mão de obra. Para isso, será preciso articulação entre bancos públicos, como BNDES e Finep, ministérios, e governos estaduais. A transição pode ser oportunidade ou ilusão — tudo depende da execução.
Conclusão: Caminho Sem Volta, Mas Cheio de Obstáculos
O Fórum do BNDES mostrou que o Brasil tem boas ideias e projetos promissores para alinhar reindustrialização e sustentabilidade. Mas ainda falta escalar, financiar e integrar essas iniciativas. A economia circular pode, sim, ser um motor para a nova indústria verde brasileira — mas precisa sair do PowerPoint e chegar na ponta, com impacto real na cadeia produtiva e social.
A pergunta que fica é: o governo e o setor produtivo conseguirão transformar pilotos isolados em uma política industrial verde de verdade — com escala, investimento e inclusão?