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A fome segue invisível para quem não vive ela
Enquanto milhões de brasileiros enfrentam insegurança alimentar diariamente, o Sistema Único de Assistência Social (SUAS) trabalha na linha de frente para identificar, mapear e articular respostas a essa crise silenciosa. O governo federal reconhece oficialmente: alimentação adequada não é luxo, é direito humano. E a assistência social é o fio condutor que transforma esse direito em ação concreta nos territórios.
Mas há um paradoxo revelador. Enquanto políticas de assistência social ganham escala e integração, a fome continua tocando em portas que o estado tradicional nunca conseguiu alcançar. O SUAS chega onde outros não chegam — porque trabalha com quem conhece cada beco, cada família, cada realidade local.
Quando a invisibilidade se torna diagnóstico
Maria Silva não pediu ajuda. Ela apenas deixou a porta aberta para a assistente social que visitava a comunidade. Três filhos, um marido desempregado há oito meses, comida que não chegava a semana inteira. A história de Maria se repete em 43 milhões de brasileiros que vivem em insegurança alimentar — aquele estado onde a próxima refeição é incerteza.
O SUAS identificou situações como a dela não através de formularários burocráticos, mas de escuta real. Cada assistente social nos territórios funciona como um sensor humano da desigualdade. Eles conhecem os nomes. Sabem onde a falta de trabalho virou falta de comida. E transformam esse conhecimento em informação que permite ao poder público agir.
Não é um programa isolado. É articulação.
Por que a fome persiste apesar dos programas
A insegurança alimentar no Brasil não é acidente econômico — é consequência estrutural de escolhas políticas históricas. Desigualdade de renda, precarização do trabalho, redução de políticas públicas: cada fator alimenta o problema de forma sistêmica.
Por décadas, governos trataram a fome como caridade. Doação pontual. Favor eleitoral. O SUAS muda essa lógica ao entender que a alimentação adequada exige articulação entre assistência, trabalho, educação e saúde. Uma mãe que recebe transferência de renda mas está desempregada ainda tem insegurança alimentar. Uma criança que vai à escola com fome não aprende. Um trabalhador desnutrido não produz.
Pergunta que não quer calar: quantas famílias deixam de ser alcançadas porque o SUAS ainda não possui recursos suficientes para expandir sua rede territorial?
A responsabilidade de nomear o problema
O Ministério do Desenvolvimento Social não apenas reconhece a insegurança alimentar — a nomeia, a mapeia, a coloca no centro do debate público. Isso importa. Importa porque durante anos o tema foi marginalizado, tratado como estatística menor em relatórios ignorados.
Hoje, dados concretos mostram: o SUAS opera em 5.570 municípios brasileiros, com mais de 200 mil profissionais ligados à assistência social. Cada um deles é um elo entre a família que não tem comida e a política pública que deveria garantir direito. Mudar a estrutura. Sem estrutura integrada, a boa vontade de um assistente social não alimenta ninguém por muito tempo.
O que é possível fazer agora
Outras nações experimentaram estratégias que funcionam. Quando a assistência social se conecta com programas de geração de renda, com compras públicas da agricultura familiar, com alimentação escolar ampliada, os números mudam. A fome não desaparece de um dia para outro — mas para de crescer.
Nós não precisamos inventar a solução. Precisamos financiá-la. Precisamos que o SUAS tenha recursos não apenas para identificar a insegurança alimentar, mas para erradicá-la através de políticas integradas que garantam trabalho, renda e acesso a alimentos de qualidade.
O direito humano que depende de ação
Reconhecer a alimentação como direito humano é necessário. Suficiente? Não. O Estado democrático precisa ir além do discurso — precisa garantir que cada brasileira e cada brasileiro tenha três refeições decentes por dia. Sem exceção. Sem caridade.
O SUAS mostrou o caminho: identificar quem sofre, articular respostas, conectar políticas. Agora cabe a nós — cidadania, governo, movimento social — exigir que esse caminho se torne via férrea, que carregue milhões para fora da fome. Esse é o contrato social que não pode mais esperar.
Fonte: @mdsgovbr no X (Twitter)