O presidente Lula se encontrou esta semana com Zohran Mamdani, jovem prefeito de Nova York, em conversa que sinalizou alinhamento estratégico entre lideranças progressistas sobre a urgência do combate à pobreza nas duas maiores economias do hemisfério. O encontro não foi casual: reflete movimento internacional de renovação política que coloca a questão social no centro da agenda dos próximos anos.
Mamdani, aos 31 anos, representa uma geração que não vê a luta contra a pobreza como assistencialismo, mas como projeto de civilização. Sua eleição em Nova York em 2021, em distrito até então dominado por conservadores, revelou fenda nas estruturas políticas tradicionais americanas. Quando Lula o reconhece como “político do futuro”, está dizendo algo maior: os ventos globais mudaram de direção.
A realidade que o encontro revela
Por trás dessa conversa diplomática existe uma estatística brutal: 37 milhões de americanos vivem abaixo da linha de pobreza. No Brasil, 29 milhões ainda enfrentam pobreza extrema apesar dos avanços recentes. São 66 milhões de pessoas em duas nações que concentram metade do PIB das Américas. Impossível ignorar.
Mamdani construiu sua carreira recusando compromissos com Wall Street. Como membro do Conselho Municipal de Nova York, criou políticas de moradia acessível e defendeu aumento do salário mínimo enquanto bancos faturavam bilhões. Sua trajetória desafia a narrativa de que América e Brasil caminham em direções opostas — ambas têm suas próprias batalhas contra elites que lucram com a desigualdade.
Por que essa conversa importa agora
Vivemos momento em que democracias vacilam exatamente onde mais se aprofundou a pobreza. Donald Trump prometia soluções populistas que beneficiavam milionários. Bolsonaro fez o mesmo. A frustração social não desaparece — muda de forma. Quando Lula e Mamdani conversam sobre “trazer cada vez mais” (a frase do tweet deixa em aberto o que seria trazido), estão nomeando alternativa concreta.
O desafio? Estados Unidos e Brasil não têm tradição de cooperação em políticas sociais. Seus governos federais historicamente competem por influência na região, não colaboram. Que tipo de acordo seria possível entre uma capital progressista americana e o governo brasileiro sobre combate à pobreza?
O que já funciona e pode escalar
Brasil provou que é possível reduzir pobreza extrema em larga escala. Entre 2003 e 2010, tirou 20 milhões da extrema pobreza através de transferência de renda e políticas de emprego. Nova York experimentou com sucesso programas piloto de renda básica. Nós temos fórmulas que funcionam. O que falta é vontade política simultânea em múltiplos territórios.
Mamdani já propôs em Nova York o que parecia impossível há dez anos: moradia como direito, não mercadoria. Governos progressistas em Buenos Aires, Cidade do México e agora em Rio de Janeiro caminham em direção similar. O padrão existe. Está esperando escala.
Quem deveria estar nessa conversa e não está
Enquanto Lula e Mamdani dialogam, trilionários como Elon Musk e brasileiros como Joesley Mendes financiam campanhas que prometem exatamente o oposto — menos Estado, mais lucro privado. O paradoxo é visível: quanto mais desigualdade cresce, mais recursos fluem para quem quer aprofundá-la.
Mas aqui está a ruptura: nenhuma eleição recente nos EUA ou Brasil trouxe ao poder quem prometia aumentar pobreza. Todos vencem fingindo que vão resolvê-la. Quando um jovem político como Mamdani consegue fazer diferente em Nova York é porque algo mudou nas estruturas de poder. Não é concessão. É rachadela.
O que vem a seguir
Esse encontro será memorável apenas se virar acordo. Será esquecido se ficar em conversa. Nós — sociedades que vivem sob pressão crescente da desigualdade — precisamos transformar alinhamento entre lideranças em responsabilidade institucional. Não basta reconhecer que Mamdani representa o futuro. É preciso exigir que esse futuro chegue mais rápido.
O Brasil pode oferecer expertise em programas de larga escala. Os EUA podem oferecer investimento em tecnologia para replicar essas soluções. Juntos, poderiam criar modelo que mudasse dinâmica em toda a região. Mas isso exige vontade política sustentada. Encontro entre presidentes não muda nada se ficar no discurso.
Conversas sobre combate à pobreza entre dois lados do Atlântico só ganham sentido quando viram ação. O teste real não é se Lula e Mamdani se entendem. É se conseguem fazer juntos aquilo que nenhum deles consegue sozinho.
Fonte: @LulaOficial no X (Twitter)