O presidente Lula participou nesta terça-feira de uma apresentação das forças de segurança do Rio de Janeiro, reafirmando o compromisso federal com a redução da violência urbana. O evento reuniu policiais federais, militares e civis em demonstração de força integrada, simbolizando uma aposta do governo em coordenação entre órgãos historicamente fragmentados.
A apresentação ocorre em momento crítico: o Rio registra aumento significativo em operações policiais e apreensões de armas. Mas também expõe uma paradoxo: enquanto Brasília investe em visibilidade operacional, famílias nas periferias cariocas continuam escolhendo entre sair para trabalhar e voltar vivo. Quem ganha com essa narrativa de força são os investidores e eleitores urbanos de classe média. Quem aguarda resultados concretos são os 6 milhões de cariocas em territórios de risco.
A realidade além das apresentações
Maria da Silva trabalha como auxiliar de limpeza em um condomínio na Zona Sul do Rio. Todas as manhãs, ela cruza a Avenida Brasil para chegar ao emprego, passando por três pontos de tráfico. “Apresentação é bom para ver na TV, mas aqui na rua a gente segue tendo medo”, diz ela, refletindo o sentimento de mais de 2 milhões de trabalhadores formais que vivem em comunidades periféricas. A segurança pública não é apenas números operacionais. É a possibilidade de uma mãe dormir tranquila sabendo que seu filho chegará em casa. É o direito de trabalhar sem calcular rotas de fuga. É dignidade.
Por que a violência persiste mesmo com operações federais
O Rio enfrenta um problema estrutural: décadas de ausência estatal criaram vácuos de poder preenchidos por organizações criminosas. As operações policiais, quando isoladas, funcionam como curativos em feridas que precisam de cirurgia. A questão que permanece sem resposta é: onde estão os investimentos em oportunidades para os 400 mil jovens cariocas fora da escola e do mercado formal? Sem isso, apresentações de força repetem um ciclo que começou há 40 anos.
Os traficantes sabem disso. Por isso retornam. A polícia prende, mas a estrutura que os criou permanece intacta. Esse é o fracasso real.
O que é possível fazer agora
Nós sabemos que segurança pública funciona quando combina três elementos: força policial, investimento comunitário e oportunidade econômica. Em Medelín, entre 2004 e 2015, a Colômbia reduziu homicídios em 80% através de integração de favelas com metrô, escolas técnicas e programas de renda. Não foi só polícia. Foi nós, coletivamente, decidindo que a segurança também é educação, emprego e infraestrutura.
O governo federal já investe em operações. A próxima etapa exige coragem política diferente: expandir programas de qualificação profissional nas periferias cariocas e vincular segurança a desenvolvimento territorial. Lula conhece esse argumento. A pergunta é se a ação acompanhará os discursos nas apresentações militares.
O chamado urgente
Operações visíveis geram manchetes. Segurança real exige transformação invisível de comunidades inteiras. Os cariocas não precisam ver mais apresentações de força. Precisam de resultados mensuráveis: menos tiroteios, mais escolas, mais empregos formais, menos funerais.
O momento é agora. A decisão de integrar segurança com desenvolvimento é de Brasília. Mas a mudança será medida nas ruas onde Maria da Silva caminha todos os dias para trabalhar. Sem medo.
Fonte: @LulaOficial no X (Twitter)